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Ayahuasca O Que É?

O que é ayahuasca é para que serve?

Como ela funciona? – O chá de ayahuasca contém DMT e inibidores da monoamina oxidase. Ao agirem no sistema nervoso central, essas substâncias causam euforia e visões psicodélicas. É por isso que muitos usuários acreditam que o uso da droga proporciona experiências místicas e transcendentais.

Qual é o efeito da ayahuasca?

ARTIGO ORIGINAL Ayahuasca: uma abordagem toxicológica do uso ritualístico Ayahuasca: a toxicological approach of the ritualistic use Maria Carolina Meres Costa I ; Mariana Cecchetto Figueiredo II ; Silvia de O. Santos Cazenave III I Farmacêutica-Bioquímica II Farmacêutica-Bioquímica.

Mestranda em Clínica Médica pelo Departamento de Farmacologia e Toxicologia – CPQBA da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) III Professora Titular de Toxicologia e Diretora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Pontifícia Universidade de Campinas (PUC-Campinas). Perita Criminal de Toxicologia Forense do Núcleo de Perícias Criminalísticas de Campinas Endereço para correspondência Endereço para correspondência Rua Ruy Pupo de Campos Ferreira, 335, Jardim Campos Elíseos 1306-243 – Campinas – SP Tel: (19) 3227-5703 Fax: (19) 3227-6913 e-mail: [email protected] RESUMO O chá da Ayahuasca vem sendo utilizado milenarmente por índios da América do Sul,como instrumento espiritual e ritual, com extrema religiosidade.

No século passado surgiram seitas não-indígenas, que passaram a fazer uso do chá. Essa utilização vem aumentando desde a liberação do uso da Ayahuasca para fins religiosos no Brasil. A ação do chá deve-se à presença de alcalóides nas plantas utilizadas na sua preparação: o cipó Banisteriopsis caapi e as folhas do arbusto Psycotria viridis,

Os efeitos observados são: alucinações, hipertensão, taquicardia, náuseas, vômitos e diarréia. Estas ações podem causar efeitos mais sérios ao organismo e, portanto, merecem maior atenção dos profissionais da saúde, no sentido de que se promovam estudos que possam permitir a utilização religiosa do chá sem maiores danos biológicos e para a conscientização dos usuários sobre os possíveis efeitos tóxicos destas substâncias.

Palavras-chave: Ayahuasca, ritual, alucinógeno, efeitos tóxicos. ABSTRACT The Ayahuasca tea has been used for more than a thousand years by the Indians of South America, as a spiritual and ritualistic instrument, for religious purposes. Non-Indians sects have arose in the last century, and started to use the tea.

  • This utilization is increasing since the legalization of the Ayahuasca for religious use in Brazil.
  • The effect of the tea is caused by the presence of alkaloids in the plants used in its preparation: the Banisteriopsis caapi liana, and the leaves of Psycotria viridis shrub.
  • The effects observed are: hallucination, hypertension, tachycardia, nausea, vomiting and diarrhea.

These actions may cause more serious damage to the organism, and therefore deserve more attention from the health professionals, because even for strickly religious use the tea may cause higher biological damage and therefore, the users should be made aware of the possible toxic effects of these substances.

  • Ey-words: Ayahuasca, ritual, hallucinogens, toxin effects.
  • Introdução A palavra Ayahuasca é de origem indígena.
  • Aya quer dizer “pessoa morta, alma espírito” e waska significa “corda, liana, cipó ou vinho”.
  • Assim a tradução, para o português, seria algo como “corda dos mortos” ou “vinho dos mortos”.
  • No Peru, encontrou-se o seguinte significado: “soga de los muertos”, (Labate e Araújo, 2002).

O chá da Ayahuasca consiste da infusão do cipó Banisteriopsis caapi e as folhas do arbusto Psycotria viridis. O uso – inicialmente restrito aos povos indígenas – passou a ser incorporado pelas civilizações e vilarejos da Amazônia Ocidental, surgindo o vegetalismo (medicina popular de civilizações rurais do Peru e da Colômbia, que mantém elementos antigos sobre plantas, absorvidos das tribos indígenas e influências do esoterismo europeu dos colonizadores) (Labate e Araújo, 2002).

No início do século XX, o uso de substâncias psicotrópicas na sociedade ocidental era quase inexistente – com exceção do álcool (Labigaline, 1998) – e embora a tradição da bebida seja comum a diversas tribos de grande parte da América do Sul (Peru, Colômbia, Venezuela, Bolívia e Equador), somente no Brasil desenvolveram-se religiões não-indígenas que utilizam a Ayahuasca.

Estas religiões reelaboraram as tradições antigas com influências do cristianismo, espiritismo kardecista e religião afro-brasileira (Labate e Araújo, 2002). A liberação da Ayahuasca para uso em rituais religiosos no Brasil representou a liberdade de culto e um aumento significativo dos adeptos do chá.

Do ponto de vista toxicológico, o uso do chá pode trazer efeitos nocivos ao organismo como: desidratação, por conta das náuseas, vômito e diarréia comumente relatadas, e a síndrome serotoninérgica, sendo que a última é a conseqüência mais grave desta utilização (Callaway et al., 1999; Callaway et al.

, 1994; Sternbach, 1991). Objetivos Geral O objetivo deste trabalho foi avaliar o padrão de uso da infusão de Banisteriopsis caapi com a Psycotria viridis (chá) no contexto ritual. Específico Destacar os possíveis efeitos tóxicos, propondo campos de pesquisas mais aprofundados sobre o assunto.

  1. Revisão antropológica do uso do chá A UTILIZAÇÃO DA AYAHUASCA PELAS CIVILIZAÇÕES INDÍGENAS DA AMÉRICA DO SUL Diversos povos indígenas, que vivem desde a região da Amazônia até o sul dos Andes, fazem uso ritualístico de várias substâncias alucinógenas.
  2. A Ayahuasca ( Banisteriopsis caapi e Psycotria viridis), especificamente, é utilizada por cerca de 72 tribos distintas da Amazônia, dentre elas destacam-se os Kaxinawá, Yaminawa, Sharanawa, Ashaninka, Airo-pai, Baranara, dentre muitas outras de cultura xamã (Labate e Araújo, 2002; Macrea, 1992).

Para estas civilizações primitivas, as manifestações religiosas ocorrem na forma de mitos ligados à realidade do meio que os cercam. Para os Kaxinawá, por exemplo, a natureza possui alma, vontade e ordem própria, revelando que o espírito da mesma é uma energia vital responsável por todo o fenômeno vivo em qualquer parte do mundo (Labate e Araújo, 2002).

Assim, a natureza não está fora do humano, o humano está dentro da natureza, reconhece marcas e traços de sua cultura verdadeira, em hábitos, sons e desenhos de animais e espíritos. Para os Kaxinawá, a natureza não existe sem ser permeada pelo espiritual, senão seria apenas pó (Labate e Araújo, 2002).

Na cultura indígena, quando se está em um estado normal da percepção só é possível ver os corpos e suas utilidades, porém, nos estados alterados de consciência é que se defronta o outro lado da realidade, percebendo os espíritos que habitam as plantas e os animais e, que as tribos reconhecem, como “gente nossa” (Labete e Araújo, 2002).

Nesse ponto, o consumo da Ayahuasca possibilita a percepção da igualdade entre os seres (Labete e Araújo, 2002; Macrea, 1992). O estado de alteração da consciência induzido pelo chá está em relação direta com os sonhos. Perceber o lado oculto da realidade é a razão pela qual se sonha ou se ingere o chá (Labete e Araújo, 2002).

A ingestão da bebida seria, ainda, fundamental para o destino do índio depois da sua morte. Somente com o chá, o homem poderia perceber a separação entre o espírito e o corpo. Sem isso o corpo ficaria louco e não conseguiria alcançar a “aldeia celeste”, que seria o destino final do espírito.

  • E, também, somente com o chá se pode adquirir a força necessária para enfrentar “a luta espiritual com a onça gigante e não ser devorado por esta, que está no meio do caminho para a aldeia celeste” (Labete e Araújo, 2002).
  • Entre os Ashaninka, a Ayahuasca significa virtude religiosa e moral, sendo seu uso ligado a um dever, cuja principal característica é a eternidade (Labete e Araújo, 2002).

Dentre as culturas indígenas, as visões causadas pelas plantas são consideradas verdades absolutas, e mais, as visões seriam a verdade. Para estas civilizações, a vida cotidiana seria uma ilusão ou um período transitório (Labete e Araújo, 2002). O verdadeiro aspecto da vida na Terra é aquele contemplado nas visões sob o efeito do chá.

  1. A planta revelaria as coisas como elas realmente são, revelaria a essência dos seres, e neste caso todos seriam iguais, todos com aspecto humano, mas não são homens e sim seres da natureza que vivem em um espaço próprio, onde eles vêem tudo e sabem de tudo (Labete e Araújo, 2002).
  2. A Ayahuasca é considerada, ainda, como sendo a fonte de todo o conhecimento necessário para se viver corretamente em todos os aspectos (pessoal, moral, social, espiritual, ancestral, com os animais, plantas e seres sobrenaturais).

Por fim, destacamos a crença indígena nos efeitos terapêuticos da planta que é ao mesmo tempo aquilo que permite o diagnóstico, bem como a cura para inúmeros males (Labete e Araújo, 2002). Assim, a Ayahuasca, para as tribos indígenas, seria a ferramenta para a compreensão da natureza (Deus e vida), além de indicar a identidade social e a autonomia da tribo.

A Ayahuasca nas religiões contemporâneas O SANTO DAIME (CULTO ECLÉTICO DA FLUENTE LUZ UNIVERSAL) O Santo Daime foi criado em Rio Branco (AC), por um seringueiro chamado Raimundo Irineu Serra. O chá é feito com a união das plantas: o cipó é o elemento masculino e a folha o feminino. A palavra Daime vem do verbo “dar” mais o pronome “me”, como um pedido: – “Dai-me força, dai-me luz” (Labete e Araújo, 2002).

Os rituais na religião do Daime são designados “trabalhos” que se aplicam sobre o corpo e o pensamento (Labete e Araújo, 2002; Macrea, 1992). A noção de trabalho nomeia o “trabalho espiritual” que tem como suporte o corpo em sua totalidade, essas ações dizem respeito a atitudes corporais visando à adaptação do jovem (neófito) ao sistema.

  1. O “trabalho” significa uma multiplicidade de técnicas que têm o corpo por suporte: “fardamento”, concentração, coordenação de movimentos, o cântico de hinos e os efeitos físicos da bebida.
  2. Salienta-se que é preciso aceitar os códigos de conduta no interior do sistema, com destaque para a obediência, a humildade e o amor a todos os irmãos (Labete e Araújo, 2002; Macrea, 1992).

A bebida é considerada instrumento de acesso ao “mundo espiritual”, que só pode ser conseguido através do conjunto de técnicas que induzem efeitos previstos e prescritos pelo sistema (Labete e Araújo, 2002; Macrea, 1992). As técnicas corporais variam com a idade, são divididas em relação ao sexo e instituem identidade e posição social (Labete e Araújo, 2002).

Existem inúmeras técnicas no “daimismo”. Podemos citar, por exemplo: “técnicas do nascimento e da obstetrícia” – nas quais o chá é utilizado por mulheres grávidas como proteção e facilitador do parto. Em geral, as mulheres daimistas têm seus filhos em casa e aconselha-se que tomem o Daime (Labete e Araújo, 2002).

Os recém-nascidos recebem uma gota de Daime em sua boca, podendo continuar a recebê-lo ao longo da vida, de acordo com a decisão dos pais (Labete e Araújo, 2002). O batismo consiste em colocar na boca do batizando uma pitada de sal, seguido de algumas gotas de Daime e o derramamento de uma pequena quantidade de água sobre a cabeça do neófito; são exemplos ainda as “técnicas da infância, as técnicas da adolescência e as técnicas de cuidados corporais”, “técnica do consumo” (Labete e Araújo, 2002).

O ritual de preparo do chá é realizado na última lua nova do mês, recaindo em um fim de semana, quando então é feita a limpeza das plantas. Em seguida, prepara-se a infusão a partir dessas plantas (iniciando o cozimento da folha e do cipó em camadas alternadas), indo ao fogo três vezes, representando o firmamento do sol, lua e estrela.

Em seguida, ocorre a ingestão junto aos cânticos dos hinos (Labete e Araújo, 2002; Macrea, 1992). Destaca-se, entre os usuários do Daime, o reconhecimento de sua ação terapêutica. A interpretação simbólica da doença é constituída através de noções cristãs como o arrependimento e o perdão, apontando para a necessidade de uma transformação ética, conseguida com a utilização do chá, devidos aos seus poderes na mente humana (Labete e Araújo, 2002).

Os conceitos kardecistas juntam-se às concepções cristãs na organização das explicações daimistas de doença e cura (Labete e Araújo 2002; Macrea, 1992). A BARQUINHA (CENTRO ESPÍRITA E CULTO DE ORAÇÃO CADA DE JESUS E FONTE DE LUZ) Essa religião foi criada no Acre, onde se restringe até hoje ( http://members.tripod.com/bmgil/aws08.html ).

Possui influencias de práticas religiosas, tais como catolicismo popular, xamanismo indígena, religiões afro-brasileiras e filosofia do Circulo Esotérico da Comunhão do Pensamento. O elemento principal é o Daime, de onde os participantes adquirem uma percepção diferenciada da realidade, entrando em um estado alterado de consciência (Labete e Araújo, 2002).

  • Uma das características reside no fato dos símbolos estarem relacionados ao mar.
  • A barca e os seus integrantes têm dois significados: o primeiro é o de que ela representa a missão deixada por seu criador (marinheiro, filho de escravos) e o segundo expressa a viagem de cada um pelo mar, representando a viagem/passagem do ser humano pela vida (Labete e Araújo, 2002).

A UNIÃO DO VEGETAL Existem hoje, cerca de cinco mil pessoas ligadas à União Vegetal (UDV) em diversos locais do país. Seus participantes ingerem o chá em sessões noturnas quinzenais regulares, em sessões anuais e datas comemorativas cristãs. Essa doutrina poderia ser denominada como cristianismo espiritualista, com influências orientais e de outras religiões (Labigaline, 1998).

  1. Além da crença nessas idéias, a instituição desenvolveu um conjunto de regras, sanções e valores morais que facilitam a evolução espiritual, segundo seus membros.
  2. A infidelidade conjugal, o uso de álcool e outras substâncias psicoativas são exemplos de práticas desaconselhadas por seus membros.
  3. A instituição foi lentamente se hierarquizando e hoje seus membros estão divididos em mestres, conselheiros e discípulos (Labigaline, 1998).

Os rituais são dirigidos pelo Mestre Geral Representante de cada núcleo, não existem mulheres nesta função. A diferença hierárquica existe também na divisão de atividades do núcleo, como o preparo do chá, lanches e refeições que são servidos nos dias de trabalho e rituais (Labigaline, 1998).

  • O uso do chá por seus membros é visto como uma forma de atingir um estado de êxtase e lucidez espiritual.
  • O Mestre dosa, segundo sua impressão, a quantidade que cada indivíduo deve receber, não excedendo um copo americano (150 a 200 mL) (Labigaline, 1998).
  • Os usuários experientes têm muito cuidado na escolha das pessoas e do local onde é realizado o ritual (Labigaline, 1998).

Na presença de pessoas iniciantes ou pouco conhecidas pelo grupo, esses devem estar sempre acompanhados de um usuário experiente e geralmente esses realizam uma preleção coletiva com a finalidade de atenuar ao máximo a possibilidade do surgimento de reações adversas e para proteção da experiência grupal (Labigaline, 1998).

Nesta preleção, realiza-se um planejamento do ritual considerando-se aspectos tais como: combinações prévias daquilo que os participantes podem realizar, preparação da alimentação que será ingerida durante ou após o ritual, se serão utilizados ou não tranqüilizantes para pessoas que passem por uma “viagem ruim” e se haverá ou não algum tipo de comunicação verbal entre os participantes durante a experiência (Labigaline, 1998).

Quando os efeitos começam a surgir, o Mestre circula entre os participantes perguntando se “há burracheira 1 1 Burracheira: “É o nome dado ao efeito da Ayahuasca no espírito humano, e significa ‘força estranha’. Revela a dimensão espiritual e a existência do Sagrado.

  • Durante o tempo que esta força se manifesta, o discípulo experimenta grande clareza e discernimento e recebe ensinamentos sobre a própria existência.
  • A burracheira nem sempre é uma experiência fácil, embora seja sempre benéfica e purificadora” ( http://www.uniaodovegetal.org.br/udv/index.html ).
  • Ou se os efeitos começaram a surgir (Labigaline, 1998).

Durante as duas horas seguintes ocorrem vários períodos de silêncio, interrompidos por chamadas ou canções que evocariam os espíritos protetores, cantados geralmente por um dos Mestres (Labigaline, 1998). Se alguém desejar sair, deve solicitar ao Mestre e seguir o sentido anti-horário da mesa (Labigaline, 1998).

Esta doutrina mostra-se extremamente cuidadosa, organizada e fundamentada em seus conceitos e valores morais e religiosos. Aspectos botânicos, químicos e farmacológicos da Ayahuasca Características botânicas e químicas das plantas utilizadas na preparação do chá O cipó Banisteriopsis caapi é da família Malpighiaceae, nativa da Amazônia e dos Andes.

Possui em sua composição alcalóides b-carbolinas inibidoras da MAO, sendo que os de maior concentração são: harmina, harmalina, tetra-hidro-harmalina. A concentração desses alcalóides varia de 0,05% a 1,95% (McKenna et al., 1998). A Psycotria viridis, planta da família Rubiaceae, possui em sua composição o alcalóide derivado indólico N, N-dimetiltriptamina (DMT) em concentração de 0,1% a 0,66% que age sobre os receptores da serotonina (McKenna et al.

, 1998). Baseado em análises quantitativas do chá, 200 mL de Ayahuasca possui 30 mg de harmina, 10 mg de tetra-hidro-harmalina e 25 mg de DMT (McKenna et al., 1998). Em camundongos, 5 mg/kg de harmalina causa cem por cento de inibição motora por duas horas (McKenna et al., 1998). Essa dose seria em adultos o equivalente a 375 mg em 75 kg, porém, é provável que metade dessa dose também tenha efeito (McKenna et al.

, 1998). Como são inibidoras da monoaminoxidase (MAO), as b-carbolinas podem aumentar os níveis de serotonina no cérebro e os efeitos primários de altas doses dessas substâncias é a sedação provocada pelo bloqueio da desaminação da serotonina (McKenna et al.

  1. 1998). No chá da Ayahuasca, as b-carbolinas inibem a MAO, protegendo o DMT da degradação pela mesma (McKenna et al., 1998).
  2. Mecanismo de ação do DMT e das b-carbolinas O RECEPTOR DA 5-HIDROXITRIPTAMINA – SEROTONINA Antes que se possa entender o mecanismo de ação dos alcalóides encontrados no chá da Ayahuasca, faz-se necessário o entendimento do mecanismo endógeno.

A serotonina 5-hidroxitriptamina (5-HT) se distribui amplamente nos tecidos animais (Katzung, 1998). Na glândula pineal, atua como precursora da melatonina, um hormônio estimulador dos melanócitos (Katzung, 1998). Mais de 90% da serotonina do organismo são encontradas nas células enterocromafins do trato gastrintestinal (TGI) (Katzung, 1998).

  • No sangue, a serotonina é encontrada nas plaquetas, que são capazes de concentrar a amina por meio de um mecanismo transportador ativo (Katzung, 1998).
  • É encontrada também, nos núcleos da rafe do tronco cerebral, que contém corpos celulares de neurônios triptaminérgicos (serotoninérgicos) que sintetizam, armazenam e liberam a serotonina como seu transmissor (Katzung, 1998).

Os neurônios serotoninérgicos cerebrais estão envolvidos em diversas funções como sono, humor, regulação da temperatura, percepção da dor e regulação da pressão arterial (Katzung, 1998). Pode estar envolvida ainda, com condições patológicas, tais como depressão, ansiedade e enxaqueca.

  • Neurônios serotoninérgicos são encontrados, também no sistema nervoso entérico do TGI e em torno dos vasos sangüíneos (Katzung, 1998).
  • A serotonina é metabolizada pela MAO em 5-hidroxindolacetaldeído (Katzung, 1998).
  • A serotonina exerce muitas ações mediadas por receptores na membrana celular.
  • O receptor 5-HT 1a tem distribuição pelos núcleos da rafe e hipocampo, diminuindo o AMP cíclico e levando à hiperpolarização da membrana causada pelo aumento da condutância de K +,

O receptor 5-HT 1b aparece no globo pálido e gânglios da base e sua estimulação leva à diminuição do AMP c, O receptor 5-HT 1c ocorre no coróide e hipocampo gerando também, aumento do IP 3 nesses locais (Katzung, 1998). O 5-HT 2 distribui-se pelas plaquetas, músculo liso, córtex cerebral e fundo do estômago, causando aumento do IP 3 (Katzung, 1998).

Esse aumento de IP 3 significa, ao final do mecanismo, aumento da secreção e da motilidade desses órgãos e tecidos. Os principais efeitos da serotonina no sistema cardiovascular são: contração do músculo liso e vaso constrição potente (exceto em músculos esqueléticos e no coração); no coração causa vasodilatação e agregação plaquetária ocasionada pela ativação do 5-HT 2 de superfície (Katzung, 1998).

No TGI, causa contração da musculatura lisa, aumentando tônus e facilitando o peristaltismo. A produção excessiva de serotonina em tumores associa-se à diarréia intensa (Katzung, 1998). Sobre a respiração, a serotonina tem pequena ação estimulante do músculo liso bronquiolar (Katzung, 1998).

No sistema nervoso, essa substância é estimuladora potente das terminações nervosas sensoriais para dor e prurido, além disso, é ativadora potente das terminações quimio-sensíveis localizadas no leito vascular coronário, associada à bradicardia e hipotensão (Katzung, 1998). A DIMETILTRIPTAMINA O dimetiltriptamina (DMT) é um potente alucinógeno quando usado por via parenteral na dosagem de 25 mg (McKenna et al.

, 1998). Sua ação é agonista dos receptores 5-HT 1a, 1b, 1d e do 5-HT 2a e 2c, Porém, por via oral, ele é inativado através da desaminação sofrida pela ação da enzima MAO intestinal e hepática. Os efeitos aparecem de 30 a 45 minutos, aproximadamente, e podem durar até quatro horas (Mckenna et al.

  • 1998). AS b-CARBOLINAS As b-carbolinas têm propriedades alucinógenas (Cazenave, 1996) e, portanto, contribuem para a atividade da bebida Ayahuasca.
  • Como são inibidoras da MAO, as b-carbolinas inibem a desaminação intestinal do DMT possibilitando a chegada deste ao cérebro, mesmo por via oral (Callaway et al.1999).

Além disso, elas ainda aumentam os níveis de serotonina, dopamina, norepinefrina e epinefina no cérebro. Os efeitos sedativos primários de altas doses de b-carbolinas são resultantes do bloqueio da desaminação da serotonina (Cazenave, 1996). A tetra-hidro-harmina (THH) é a segunda b-carbolina mais abundante no chá e atua como um fraco inibidor da recaptação do receptor 5-HT e inibidor da MAO, portanto, o THH pode prolongar a meia vida do DMT por bloquear a sua recaptação intraneuronal (McKenna et al.

1998). Por outro lado, a THH pode bloquear a recaptação neuronal da serotonina, resultando em altos níveis de 5-HT na fenda sináptica e pode atenuar os efeitos da ingestão oral do DMT por competir com os sítios receptores pós-sinápticos (McKenna et al., 1998). A ação da bebida se deve, portanto, à interação das b-carbolinas com o DMT presentes nas plantas, que juntas potencializam as propriedades alucinógenas de ambas isoladas, levando-se em consideração que as b-cartolinas aumentem as concentrações de DMT.

Os principais efeitos da Ayahuasca Os efeitos subjetivos são visão de imagens com os olhos fechados, delírios parecidos com sonhos e sensação de vigilância e estimulação. É comum ocorrer hipertensão, palpitação, taquicardia, tremores, midríase, euforia e excitação agressiva (Cazenave, 2000).

Náuseas, vômitos e diarréia são comuns e podem estar associadas à ação no receptor 5-HT 2, Certas b-carbolinas foram identificadas como causadoras de efeitos co-mutagênicos 2 2 O termo co-mutagênico significa que a substância poderá ativar algum mecanismo mutagênico. A harmina, por ela mesma, não possui atividade mutagênica, portanto, foi chamada de co-mutagênica (Umezawa et al., 1978).

e o mecanismo parece estar associado à interação destas substâncias com os ácidos nucléicos (McKenna et al., 1998). Essas substâncias, por serem inibidoras da MAO, podem causar a denominada síndrome serotoninérgica (Katzung, 1998), que é uma das patologias mais graves ocasionadas pelo excesso de serotonina (McKenna et al.

, 1998). A ação alucinógena conhecida como “miração” é uma manifestação específica e freqüente, caracterizada por visões de animais, “seres da floresta”, divindades, demônios, sensação de voar, substituição do corpo pelo de outro ser (homem ou animal), dentre muitas outras, de acordo com a experiência individual (Cazenave, 2000).

A Ayahuasca pode promover ilusões visuais, auditivas, olfativas e dos demais sentidos (Labigaline, 1998). Os chamados “estados alterados de consciência” provocados pelo chá podem ser considerados como alterações da percepção, cognição, volição e afetividade (Labigaline, 1998).

A avaliação de intensidade de efeitos da Ayahuasca foi realizada através da aplicação da Escala de Mensuração dos alucinógenos ( Hallucinogen Rating Scale ), uma hora depois de cessados os efeitos da ingestão de cerca de 150 mL do chá (Labigaline, 1998). Foram encontrados resultados semelhantes a uma dose intravenosa de 0,1 a 0,2 mg/kg de DMT nos espectros de intensidade, afeto, cognição e volição (Labigaline, 1998).

No agrupamento de percepção, foi comparável com 0,1 mg/kg de DMT e no agrupamento de sinestesia foi inferior à menor dose de DMT intravenosa utilizada (0,05 mg/kg) (Labigaline, 1998). A maioria dos alucinógenos que atuam sobre o receptor 5-HT leva ao fenômeno de tolerância, que se caracteriza pela necessidade de doses cada vez maiores para se conseguir os mesmos efeitos ou da diminuição do efeito inicial, quando a mesma dose é utilizada (Labigaline, 1998).

O DMT mostrou-se uma exceção em estudo feito 1997, onde foi demonstrado que essa substância, em uso isolado, não levou ao desenvolvimento de tolerância crescente após doses subseqüentes (Labigaline, 1998). OS ESTADOS ALTERADOS DE CONSCIÊNCIA A palavra consciência, na língua portuguesa, pode ter um sentido ético, aparecendo como um juízo de valor ou um sentido psicológico, caracterizando uma tomada de conhecimento da realidade (Labigaline, 1998).

A psicologia abre distinção de duas ordens de fenômenos na atividade psíquica: aqueles que temos conhecimento direto e imediato e aqueles que são revelados de forma especial ou por meios indiretos, dessa forma, a consciência representaria apenas uma parte da nossa psiquê (Freud, 1969).

  • Consciência do eu, existe em todas os processos psíquicos, seja como percepção, sensação do corpo, recordação, pensamento, sentimento, do eu pessoal, e chama-se personalização (Jaspers, 1954).
  • Pressupõe também a consciência do corpo físico, a forma, a posição, os limites e os movimentos do corpo resultando da integração de todas as sensações: táteis, dolorosas e visuais (Jaspers, 1954).

Os chamados estados alterados de consciência podem ser classificados em três conjuntos: embotamento ou entorpecimento, que se caracteriza pela diminuição ou perda da amplitude ou claridade da vivência, comum em quadros confusionais relacionados a processos tóxicos orgânicos, como a uremia; o estreitamento compreende, particularmente, a redução da amplitude fenomênica do campo da consciência, e que se apresenta em situações como sonambulismo, possessão, transes mediúnicos e estados de êxtase religioso; e o terceiro grupo, a obnubilação ou turvação, em que estão presentes entorpecimento importante, alteração do juízo de realidade e ideações anormais, com variações importantes dependendo da etiopatogenia do quadro, tais como delirium tremens, estados crepusculares epiléticos e amência (Nobre de Melo, 1981).

  • Dentro deste modelo teórico descrito acima, pode-se caracterizar o estado de consciência induzido pela Ayahuasca, em contexto religioso, como um estreitamento da consciência (Labigaline, 1998).
  • Tal alteração pode ser chamada de onírica, por guardar semelhanças com os sonhos (Mayer-Gross, 1969).
  • Em contexto toxicológico, o estado de consciência pode ser classificado como turvação com alteração do juízo de realidade, onde está presente entorpecimento importante.
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Existem trabalhos que propõem quatro características encontradas nos estados alterados de consciência (Labigaline, 1998): (1) Inefabilidade: algo que não pode ser explicado com palavras em nenhum relato adequado do seu conteúdo. A sensação necessita ser experimentada diretamente, não pode ser comunicada ou transferida a outros; (2) Qualidade noética: semelhantes a estados de sentimento, estados de conhecimento, estados de visão interior dirigida a profundezas da verdade não indagadas pelo raciocínio.

  1. São revelações, cheias de significado e importância; (3) Transitoriedade: não podem ser mantidos por muito tempo; (4) Passividade: sensação de que a própria vontade está adormecida e de que está sendo agarrado por uma força superior.
  2. Metodologia Com a finalidade de conhecer e atualizar a produção científica sobre o uso de Banisteriopsis caapi e Psycotria viridis, considerando-se aspectos antropológicos, toxicológicos e farmacológicos das substâncias ativas destas plantas, utilizou-se as seguintes estratégias: 1) Investigação bibliográfica retrospectiva, por meio da busca de base de dados bibliográficos como Medline (National Library of Medicine), Toxnet, SBTOx (Sociedade Brasileira de Toxicologia), Bireme (Biblioteca Regional de Medicina), Pubmed, Bibliomed e Farmatox (Red Temática Virtual de Farmacología y Toxicología).

A base de dados Medline é a mais amplamente utilizada em âmbito internacional, uma vez que analisa mais de 3.200 revistas de caráter biomédico; 2) Uma observação rigorosa, não apenas das bases de dados, mas também de publicações referenciadas em outros trabalhos encontrados em sites relacionados ao uso de substâncias psicoativas como Senad (Secretaria Nacional AntiDrogas), OBID (Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas) e Abead (Associação Brasileira de estudo de Álcool e outras Drogas); 3) Foram ouvidos voluntários que relataram os efeitos produzidos pelo uso do chá em contexto ritual, os quais se disponibilizaram, uma vez que não foram identificados de forma a respeitar a sua privacidade.

Para cada uma das estratégias a busca foi realizada utilizando-se vocabulário controlado, o que garantiu a pertinência dos resultados encontrados. Foram selecionadas as publicações que permitissem atualização dentro dos objetivos almejados. Depoimentos de usuários Neste trabalho, “membros” das seitas ofereceram-se, voluntariamente, para manifestar suas opiniões a respeito do assunto.

Como os relatos foram espontâneos, não foram identificadas suas iniciais, sendo transcritos somente seus depoimentos. Abaixo os relatos das experiências físicas e as mirações obtidas durante a burracheira, “Na minha primeira experiência participei de todo o ritual na UDV e demorou um pouco para começarem os efeitos.

  1. De repente, comecei a ficar meio letárgico e aí eu vi o índio gigante ao redor da mesa, trazendo a burracheira “.
  2. Cheguei na beira de um barranco que tinha um buraco, coloquei o rosto no buraco pra ver o que tinha dentro, mas tive medo de olhar.
  3. Aí comecei a ouvir um barulho de mãos me chamando para entrar e uma voz disse: – Ele tá com medo, ele não vai vir! – Aí coloquei a cabeça no buraco e vi muitas luzes brilhando lá no fundo e escorreguei pra dentro.

Nesse momento, tive a sensação do parto, era como se estivesse saindo do ventre da minha mãe. Ao meu redor, surgiram borboletas, daí não tive mais medo”. “Lembro de tudo nitidamente. Eu via seres da floresta carregando lixo da floresta para dentro de uma caminhonete.

Muitos seres e muito lixo. Então perguntei para um deles: – O que é isso? – um dos seres me respondeu – São as suas máscaras, você não pode ver ainda.!”. “Se a pessoa está aprisionada ao ego ela pode se sentir muito mal. Transporte para um mundo feio, ruim. Sentir náusea, diarréia é o que chamamos de PEIA, significa o indivíduo passando mal”.

“Senti a presença da Nossa Senhora, a mãe Divina, mas não tive condições espirituais de olhá-la. Foi muito maravilhoso”. “Eu não vomitei nenhuma das vezes”. “Na primeira vez passei muito mal, com vômitos excessivos, taquicardia, não conseguia manter-me em pé, tinha medo, não conseguia dormir, mas isso aconteceu porque eu havia caminhado muito e esses efeitos são um processo de limpeza do organismo.

  • No dia seguinte, estava super bem, levinha, sentia a pele limpa, como se estivesse hidratada.
  • A única vez que tive uma miração, senti-me voando, sentia flutuar acima do meu corpo, elevada acima das pessoas e sentia a presença na sala de pessoas que não estavam, com vestes reluzentes verdes e brancas.

Nem todas as vezes vomito, isso só quando me desconcentro do hinário.” Sobre as mudanças observadas na personalidade e saúde e a perspectiva de uso do chá. “O que mudou foi à ferramenta de autoconhecimento. Benefício de imunidade eu diria que sim, porque sou convicto de que o bem-estar físico vem da boa conectividade com a divindade”.

É possível atingir as mirações sem o chá. O daime não é o único caminho. Eu diria que, para mim, foi necessária essa ferramenta para controlar o meu ego”. “Nunca vi alguém necessitar de aumento da dose. Eu não sinto necessidade de tomar o chá”. “Se um cara tomou o chá e teve uma miração que, por exemplo, a inveja atrapalha a vida dele e depois sente inveja quando vai tomar o chá novamente este ‘cobra’ dele e aí ocorre a PEIA,

O sofrimento, o arrependimento gerado que causa a redenção”. “O daimismo é um recurso espiritual extremamente privilegiado, não se deve tratar com preconceito uma cultura milenar que traz um contato com a natureza. O Daime é o Santo Graal da busca pela felicidade”.

Discussão O padrão de utilização da Ayahuasca Deve-se levar em consideração dois tipos de uso para substâncias psicoativas: o recreativo, caracterizado pelo uso esporádico, onde não se observa nenhum prejuízo na vida do indivíduo; e o abusivo, definido como intenso, ocupando espaço maior na vida do indivíduo, prejudicando-o em algumas situações como a tolerância, dependência e compulsão em relação à substância (Labigaline,1998).

A utilização do chá da Ayahuasca pelos adeptos das religiões da UDV e Santo Daime, parece ser, de acordo com a pesquisa realizada neste trabalho, exclusivamente religiosa, não caracterizando abuso ou uso para fins ilícitos, podendo ser, portanto, classificado de acordo com o modelo acima, como recreativo.

  1. Os usuários mostram-se convencidos dos benefícios da utilização ritual, no aspecto espiritual e físico, demonstrando o caráter puramente religioso dessa utilização.
  2. Não foram observadas, neste trabalho, razões para se acreditar no uso do chá como mais um alucinógeno, como por exemplo, LSD e o êxtase.

Porém, existem trabalhos que citam a possibilidade de ocorrer este tipo de uso, sendo este associado à massificação dos cultos religiosos mascarando a finalidade ritual das seitas (Cazenave, 2000). Os motivos que levam os indivíduos à procura desta substância são ainda obscuros, mas há razões para se acreditar na busca individual de resgate do contato com a natureza e a mudança nos padrões religiosos cristãos.

O uso ritual aconteceu ao longo de toda a história da humanidade desde os seus tempos remotos e sempre foi restrito a ritos bem delimitados, com finalidades bem claras e fortemente inseridos na cultura dos povos iletrados (Labigaline, 1998). Relação da utilização ritual com os efeitos tóxicos Observa-se que as técnicas e sanções utilizadas no Santo Daime, Barquinha e UDV não levam em consideração os possíveis efeitos tóxicos das substâncias presentes no chá.

Efeitos observados comumente como náuseas, vômitos e diarréia, podem gerar reações mais graves no organismo, como desidratação e descompensação eletrolítica, sendo que esse agravamento mostra-se ainda mais sério no caso das crianças, que também são usuárias desde o nascimento, dependendo da decisão dos pais.

  1. Um fator a ser considerado é a obrigatoriedade de se consumir o chá com estômago vazio e ingerir somente alimentos leves nas semanas antecedentes à utilização.
  2. Isto se deve a presença de uma substância chamada tiramina (que pode ser encontrada em queijos, por exemplo) que é uma molécula metabolizada pela MAO, podendo atingir níveis tóxicos devido à inativação da enzima causada pelo chá.

Portanto, alimentos que possuem tiramina devem ser evitados antes da utilização do chá. As razões pelas quais alguns indivíduos apresentam distúrbios eméticos e outros não, permanecem obscuras. O uso do chá por gestantes, como protetor e facilitador do parto, pode ser um ponto crítico, pois certas b-carbolinas possuem ação co-mutagênica (Umezawa et al., 1978).

  1. A síndrome serotoninérgica parece ser o efeito mais grave das substâncias presentes no chá da Ayahuasca (Assis, 1996; Cazenave, 2000), porém, não foi observado nenhum caso durante este trabalho.
  2. Esses efeitos parecem ser ignorados pelos usuários, pois estes consideram essas ações como purificação ou um estado de não entendimento da divindade e, portanto, não são tomadas as devidas atitudes para a proteção do organismo.

Perspectivas futuras para a utilização do chá Existem relatos de usuários que sofreram intensa transformação de atitudes e de personalidade, trazendo mudanças significativas na vida desses indivíduos. Esses efeitos estariam relacionados à adesão ao ritual que, segundo o daimismo, traz à tona a visão da realidade do mundo (Labigaline, 1998).

Há, ainda, trabalhos que mostram a recuperação de indivíduos que utilizavam álcool e outras drogas pela da utilização do chá no contexto religioso. Esses indiví­duos mostravam-se ansiosos e com dificuldades emocionais, que foram substituídas pela relação com a Ayahuasca e com a instituição religiosa (Labigaline, 1998).

Conclusões O resgate antropológico contribuiu no sentido de mostrar as diferentes maneiras de se utilizar a substância em função das variáveis culturais. E mostrou que, em todos os casos, a utilização do chá segue um padrão de rituais e sanções. Certamente se mostram necessárias inúmeras pesquisas científicas no sentido de tornar essa utilização segura para os adeptos e para que estes se conscientizem dos danos ao organismo que essas substâncias podem causar.

As que parecem ser mais importantes após a realização deste trabalho são: – Utilização em gestantes e mulheres em idade fértil; – Utilização em crianças ao nascer e ao longo do crescimento; – Poder emético (reatividades individuais à ingestão do chá); – Recuperação de usuários de drogas. Este trabalho permitiu uma visão mais ampla e completa das razões que levam um indivíduo a procurar essas alternativas, mesmo que extremamente pessoais.

A pesquisa fundamenta o conhecimento para que a sociedade possa, sem preconceitos, entender e respeitar a cultura, pois é dessa forma que conseguimos informações importantes para tornar esta utilização segura, durante a exposição de seus usuários. Recebido: 20/04/2005 – Aceito: 05/08/2005

É perigoso tomar ayahuasca?

A ayahuasca é uma bebida obtida da combinação de duas plantas Banisteriopsis caapi (mariri) e Psychotria viridis (chacrona) por meio de decocção, e além desse chá ser considerado inofensivo à saúde humana em vários estudos científicos, traz diversos benefícios aos seus usuários.

Quais os benefícios do chá ayahuasca?

De acordo com o farmacólogo Santos, as substâncias ativas da ayahuasca atuam em receptores do sistema de serotonina, que está relacionada com a ansiedade, medo, depressão, sono e percepção da dor.

O que muda depois da ayahuasca?

Efeitos físicos – Além do vômito, náuseas e diarreia causados logo após o consumo do chá, outros efeitos físicos podem afetar os usuários, como taquicardia, tontura, aumento da pressão sanguínea, dor no peito e até convulsões. A intoxicação com DMT também pode causar hipertensão.

O que a Espiritualidade fala sobre a ayahuasca?

Neste sentido, podemos concluir que o uso da ayahuasca, em contexto religioso no Essência Divina, têm nos processos de expansão da consciência o encontro com o sagrado e a busca de autoconhecimento pelo homo religiosus.

Quanto tempo a ayahuasca fica no corpo?

Ayahuasca é um chá com potencial alucinógeno capaz de provocar alterações na consciência por um período de até 10 horas.

Qual a religião que usa ayahuasca?

Porém, o Xamanismo brasileiro não é apenas uma religião e não faz uso apenas da Ayahuasca em suas cerimônias. Também tem valor cultural, outras plantas de poder enteógeno e outras ‘medicinas’ que são elementos culturais da tradição espiritualista.

O que eu preciso saber antes de tomar ayahuasca?

A medicina não deve ser utilizada por quem faz tratamentos com antidepressivos e remédios tarja preta, pessoas com tendência a esquizofrenia e outras doenças psicológicas. Antes de cada ritual, é preciso seguir uma dieta de pelo menos 48 horas sem álcool, carne vermelha e comidas pesadas e gordurosas.

Quem não pode beber ayahuasca?

O que é a ayahuasca? – O chá de ayahuasca, também conhecido como Santo Daime, é uma bebida feita a partir da infusão de duas plantas amazônicas: o cipó-jagube e o arbusto-chacrona. A palavra ayahuasca tem origem indígena e pode ser traduzida como “vinho dos mortos”.

  1. O chá é utilizado há milênios por índios da América do Sul em rituais de extrema religiosidade, e somente no século passado surgiram seitas não indígenas que fazem o uso da bebida.
  2. Atualmente, cultos religiosos como o Santo Daime, Céu de Maria, Porta do Sol e União do Vegetal têm o consumo da bebida como ritual — hábito que é permitido no Brasil pelo Conselho Nacional de Políticas Sobre Droga ( CONAD ).

A liberação impõe algumas regras: pessoas que estão sob efeito de outras drogas e álcool não podem consumir o chá. Além disso, quem tem histórico de doenças mentais também não pode fazer uso da substância. No entanto, na prática, as seitas não têm como fazer esse tipo de controle e, por isso, a bebida torna-se um perigo, principalmente para quem não sabe muito bem o que é ayahuasca.

Porque ayahuasca não é droga?

Estado meditativo avançado – Embora algumas pessoas afirmem que a ayahuasca é alucinógena, muitas outras defendem que, na verdade, ela é só um instrumento para facilitar um estado meditativo profundo. Dessa forma, é como se o usuário acessasse um caminho mais rápido para ampliar a sua consciência.

  • Essa expansão consciencial está íntimamente ligada com reflexões mais profundas, um estado mental acurado, muito próximo da meditação.
  • Já as alucinações, por sua vez, tiram o indivíduo de um estado consciente e fornecem uma percepção alterada da realidade.
  • Como você pode ver, são dois caminhos bastante distintos.

Ao contrário da finalidade pelas quais as drogas alucinógenas seriam consumidas, a ayahuasca tem um uso quase terapêutico, ou pelo menos, é assim que ela é percebida quando acompanhada das cerimônias ritualísticas.

É legal comprar ayahuasca?

É permitida a comercialização da ayahuasca para o uso religioso, desde que o valor do produto compreenda somente o pagamento pelas despesas com coleta, preparo e transporte. Art.6º. A extração do cipó Banisteriopsis caapi e da folha Psychotria viridis deverá observar as normas ambientais brasileiras.

Quanto custa uma sessão de ayahuasca?

Qual é o preço do ritual com a ayahuasca? Eis aqui um tema recorrente e que causa muita polêmica entre as pessoas envolvidas com a ayahuasca nos centros urbanos. Qual deve ser o valor “pago” em um ritual com a ayahuasca? Quando iniciei meu caminho espiritual com a ayahuasca, os institutos pediam a contribuição de 10 reais.

Atualmente, nos centros da região onde estamos localizados, o preço varia entre 30 e 100 reais e sabemos de lugares que pedem 250 reais. Já ouvi falar de centros que, para participar de um ritual em que a estadia da pessoa no lugar dura um final de semana, pedem 700 reais por pessoa. Em outros países aqui na América do Sul, os valores podem facilmente chegar a 250 euros e na Europa a mil euros.

Mas afinal por que tanta diferença de preço? A primeira reflexão que devemos ter em mente diz respeito a diferenciar preço de valor. O preço de algo não necessariamente tem relação direta com seu valor. Esse assunto é controverso e muitas opiniões estão ao alcance de todos na “internet”, em vídeos e textos como esse.

A questão sempre passará pelo ponto, muito pessoal, de quanto a pessoa está disposta a pagar para participar de um ritual ou o quanto ela pensa ser correto cobrar por isso. Essas questões estão atreladas ao nível econômico de cada um, às suas exigências, segurança, ‘profissionalismo’ que procura, valores morais que a orienta e a própria relação da pessoa com o dinheiro.

Nesse sentido há um encontro entre os que cobram e aqueles que pagam e, assim, surge um relacionamento que passa por questões internas de como são e a relação que têm com o dinheiro. Nessa relação entra em jogo a valorização que se dá para algo, a segurança e benefício encontrado na troca, o medo de ser enganado ou ainda o pensamento de que o outro está nos usando para fazer negócio e enriquecer.

  • Nessa reflexão entra em debate a questão de mercadoria, que em muitos lugares a ayahuasca é tratada, e o turismo que surgiu em torno dela.
  • Uma rápida pesquisa na “internet” e podemos encontrar hotéis em Lima no Peru que oferecem a experiência com a ayahuasca, oferecendo até deslocamento a selva por 250 dólares.

Nos EUA e na Europa essas viagens a selva podem chegar a 3 mil euros e envolvem o trabalho de guias, tradutores e serviços de hospedagem e alimentação de alta qualidade. Aqui no Brasil, o contexto da ayahuasca está intimamente relacionado com o contexto religioso, embora uma rápida pesquisa na “internet” e podemos encontrar a ayahuasca sendo comercializada tal qual mercadoria e o turismo ayahuasqueiro organizado por diferentes pessoas.

  • Há também o incentivo de centros ayahuasqueiros em trazer pajés e xamãs de diversas tribos da floresta amazônica para realizar rituais com ayahuasca nas cidades.
  • Obviamente os custos destes rituais envolvem o translado e estadia dessas pessoas.
  • Existem também músicos profissionais que se dedicam a cantar ao vivo em rituais com a ayahuasca e que realizam um circuito em todo o Brasil, passando por diferentes centros ayahuasqueiros.

Pensemos agora no custo da realização de um ritual. A ayahuasca é uma parte do custo, mas não a maior. O preço do litro da ayahuasca pode variar muito e isso depende de sua qualidade, concentração e idoneidade de cada feitor. Há o custo de transporte da bebida.

  • Há centros organizados que possuem terras onde cultivam as plantas para a realização de feitios próprios e isso por si só também tem seu custo.
  • Além disso, a compra ou aluguel do local, construção, manutenção do espaço, a compra de diferentes materiais necessários a realização dos rituais, equipamentos eletrônicos e muitos outros fatores se somam ao custo da realização do ritual.

Todos esses fatores influenciam no preço que cada centro pede para a realização de um ritual. Mas, e o valor? Está à altura dos preços praticados? É muito comum ouvir por aí que uma sessão de ayahuasca equivale a muitos anos de terapia. Essa é uma crença recorrente em nosso meio.

  1. Se consideramos ela verdadeira, uma rápida conta nos mostra a dimensão da relação entre valor e preço.
  2. A média de preço de uma sessão de terapia pode variar entre 30 a 150 reais (em uma visão conservadora) em sessões de 60 a 90 minutos.
  3. Imaginamos que uma pessoa vá a cada 15 dias e fique 2 anos em tratamento.

Ela terá gasto entre 1680 a 7.200 reais ao final do tratamento. Já ouvi relatos de pessoas que estavam há décadas em tratamento psicológico e em apenas alguns rituais encontrou a ‘cura’ que tanto buscava. Pensemos agora nas pessoas que são viciadas em drogas e outras substâncias e no preço de uma internação para desintoxicação, cuja taxa de sucesso é relativamente baixa e cujo método, em muitos casos, agressivo devido ao uso intensivo de medicamentos.

  • Facilmente um tratamento de 6 meses pode ultrapassar o preço de 10 mil reais.
  • Quantos casos conhecemos de pessoas que participando dos rituais conseguiram vencer seus vícios mais degradantes? Quanto cada um estaria disposto a investir na saúde física, mental e emocional? Quanto estaria realmente disposto a sair do ‘inferno existencial’? Quanto deve ser o investimento feito por uma família para ver seu parente mais querido saindo de uma situação que afligia a todos? Nós nada temos contra qualquer preço que qualquer centro peça por seus rituais.

Felicitamos a quem pode pagar, qual seja o valor, porque podem e valorizam. Em nosso caso o preço é de 60 reais por um ritual. Muitas pessoas vieram até nós e participaram sem pagar nada ou nos dando apenas a metade ou oferecendo serviços em troca dos 60 reais.

As nossas portas nunca se fecharam para a pessoa que declarou interesse e não podia arcar com o custo. Assim como também é certo que muitas pessoas reclamam e querem pagar menos, não porque não tenham dinheiro suficiente, mas, porque o dinheiro será gasto com outras coisas, que são mais valorizadas e, porque não querem investir em sua saúde, bem-estar e autoconhecimento.

Nós do Instituto Flor de Lótus, temos um compromisso ético em oferecer a sagrada bebida, livre do comércio e das drogas, a todos aqueles que querem conhecer a si mesmos. Em nossa instituição trabalhamos de maneira voluntária para oferecer os rituais. Contamos com uma equipe de 30 pessoas que dedicam seu tempo e esforço para manutenção do local onde os trabalhos são realizados.

Todo dinheiro arrecadado nos rituais é utilizado em benefício da própria instituição e na manutenção e aprimoramento do local. É oportuno, dentro desse tema, entender que está a critério de cada um, a decisão de investir o quanto quiserem para participar de rituais com ayahuasca, há opções para todos os gostos e não vejo necessidade em afirmar qual a maneira mais justa ou correta para tal.

A nós interessa manter o trabalho sério, responsável, respeitoso e amoroso que estamos realizando ao longo dos anos, oferecendo a oportunidade de transformação a todos aqueles que nos procuram. Quanto vale essa atitude? : Qual é o preço do ritual com a ayahuasca?

Quanto tempo dura um ritual com ayahuasca?

O que esperar da experiência? – O Líder Espiritual falará brevemente com cada indivíduo para aprender sobre sua essência e diálogo interior antes de determinar a dosagem a ser dada durante a cerimônia. A Cerimônia de Ayahuasca dura 4-6 horas e começa depois do pôr do sol com um grupo sentado em um círculo ao redor do Líder.

Qual a diferença entre Santo Daime e ayahuasca?

Educação, cultura e esportes 04/03/2020 – 10:58 O Projeto de Lei 179/20 disciplina o uso do chá ayahuasca e reconhece como entidades religiosas as instituições que o utilizam para fins ritualísticos. Também ficam assegurados o livre exercício das atividades e manifestações ligadas ao chá e a proteção aos locais de culto e às suas liturgias. Jéssica Sales: proposta protege o uso legítimo do chá Autora da proposta, a deputada Jéssica Sales (MDB-AC) diz que buscou formalizar juridicamente as entidades que utilizam a ayahuasca como ingrediente de seus cultos e rituais, o que seria fundamental para o reconhecimento de direitos, como a imunidade tributária prevista na Constituição para igrejas.

Ela também afirma que essa formalização trará mais da segurança às entidades que utilizam a ayahuasca em seus cultos, trazendo maior responsabilidade e identidade. “Vai diferenciar o que é legítimo e protegido pelo Estado daquelas pseudo-entidades que fazem o mau uso do chá, muitas vezes relacionando seu uso a práticas recreativas ou outras que nada têm a ver com o legítimo exercício da religião”, explicou.

De acordo com a proposição, passa a ser permitido, em todo o território nacional, nos locais previamente autorizados, a ingestão do chá, que é feito a partir do cozimento do cipó Mariri ( Banisteriopsis caapi ) e da folha da Chacrona ( Psychotria viridis ), plantas nativas da bacia Amazônica.

A proposta regula o cultivo e a coleta das espécies vegetais que formam o chá, bem como o seu preparo, armazenamento e ministração. Mas proíbe que essas práticas sejam feitas com o intuito de obter lucro ou a associação do chá com outras substâncias psicoativas. Outra proibição prevista no projeto de lei é a utilização de publicidade e propaganda que induza a opinião pública à ingestão do chá como método de cura para males e doenças.

O chá A ayahuasca, que também pode ser chamada de “Santo Daime” ou “vegetal”, contém uma substância chamada de DMT (Dimetiltriptamina). O chá é estudado, porque essa substância altera a percepção da realidade e pode ter efeitos terapêuticos, por exemplo, no tratamento da depressão.

  • O chá é comungado por diversos povos indígenas no Brasil e em outros países amazônicos.
  • Estima-se que os Incas já tomavam a ayahuasca há mais de 5 mil anos.
  • Tramitação A proposta será analisada em caráter conclusivo pelas comissões de Seguridade Social e Família; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

Saiba mais sobre a tramitação de projetos de lei Reportagem – Marcello Larcher Edição – Wilson Silveira A reprodução das notícias é autorizada desde que contenha a assinatura ‘Agência Câmara Notícias’.

Como fica a pessoa que toma ayahuasca?

ARTIGO ORIGINAL Ayahuasca: uma abordagem toxicológica do uso ritualístico Ayahuasca: a toxicological approach of the ritualistic use Maria Carolina Meres Costa I ; Mariana Cecchetto Figueiredo II ; Silvia de O. Santos Cazenave III I Farmacêutica-Bioquímica II Farmacêutica-Bioquímica.

Mestranda em Clínica Médica pelo Departamento de Farmacologia e Toxicologia – CPQBA da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) III Professora Titular de Toxicologia e Diretora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Pontifícia Universidade de Campinas (PUC-Campinas). Perita Criminal de Toxicologia Forense do Núcleo de Perícias Criminalísticas de Campinas Endereço para correspondência Endereço para correspondência Rua Ruy Pupo de Campos Ferreira, 335, Jardim Campos Elíseos 1306-243 – Campinas – SP Tel: (19) 3227-5703 Fax: (19) 3227-6913 e-mail: [email protected] RESUMO O chá da Ayahuasca vem sendo utilizado milenarmente por índios da América do Sul,como instrumento espiritual e ritual, com extrema religiosidade.

No século passado surgiram seitas não-indígenas, que passaram a fazer uso do chá. Essa utilização vem aumentando desde a liberação do uso da Ayahuasca para fins religiosos no Brasil. A ação do chá deve-se à presença de alcalóides nas plantas utilizadas na sua preparação: o cipó Banisteriopsis caapi e as folhas do arbusto Psycotria viridis,

  • Os efeitos observados são: alucinações, hipertensão, taquicardia, náuseas, vômitos e diarréia.
  • Estas ações podem causar efeitos mais sérios ao organismo e, portanto, merecem maior atenção dos profissionais da saúde, no sentido de que se promovam estudos que possam permitir a utilização religiosa do chá sem maiores danos biológicos e para a conscientização dos usuários sobre os possíveis efeitos tóxicos destas substâncias.
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Palavras-chave: Ayahuasca, ritual, alucinógeno, efeitos tóxicos. ABSTRACT The Ayahuasca tea has been used for more than a thousand years by the Indians of South America, as a spiritual and ritualistic instrument, for religious purposes. Non-Indians sects have arose in the last century, and started to use the tea.

  • This utilization is increasing since the legalization of the Ayahuasca for religious use in Brazil.
  • The effect of the tea is caused by the presence of alkaloids in the plants used in its preparation: the Banisteriopsis caapi liana, and the leaves of Psycotria viridis shrub.
  • The effects observed are: hallucination, hypertension, tachycardia, nausea, vomiting and diarrhea.

These actions may cause more serious damage to the organism, and therefore deserve more attention from the health professionals, because even for strickly religious use the tea may cause higher biological damage and therefore, the users should be made aware of the possible toxic effects of these substances.

Key-words: Ayahuasca, ritual, hallucinogens, toxin effects. Introdução A palavra Ayahuasca é de origem indígena. Aya quer dizer “pessoa morta, alma espírito” e waska significa “corda, liana, cipó ou vinho”. Assim a tradução, para o português, seria algo como “corda dos mortos” ou “vinho dos mortos”. No Peru, encontrou-se o seguinte significado: “soga de los muertos”, (Labate e Araújo, 2002).

O chá da Ayahuasca consiste da infusão do cipó Banisteriopsis caapi e as folhas do arbusto Psycotria viridis. O uso – inicialmente restrito aos povos indígenas – passou a ser incorporado pelas civilizações e vilarejos da Amazônia Ocidental, surgindo o vegetalismo (medicina popular de civilizações rurais do Peru e da Colômbia, que mantém elementos antigos sobre plantas, absorvidos das tribos indígenas e influências do esoterismo europeu dos colonizadores) (Labate e Araújo, 2002).

No início do século XX, o uso de substâncias psicotrópicas na sociedade ocidental era quase inexistente – com exceção do álcool (Labigaline, 1998) – e embora a tradição da bebida seja comum a diversas tribos de grande parte da América do Sul (Peru, Colômbia, Venezuela, Bolívia e Equador), somente no Brasil desenvolveram-se religiões não-indígenas que utilizam a Ayahuasca.

Estas religiões reelaboraram as tradições antigas com influências do cristianismo, espiritismo kardecista e religião afro-brasileira (Labate e Araújo, 2002). A liberação da Ayahuasca para uso em rituais religiosos no Brasil representou a liberdade de culto e um aumento significativo dos adeptos do chá.

Do ponto de vista toxicológico, o uso do chá pode trazer efeitos nocivos ao organismo como: desidratação, por conta das náuseas, vômito e diarréia comumente relatadas, e a síndrome serotoninérgica, sendo que a última é a conseqüência mais grave desta utilização (Callaway et al., 1999; Callaway et al.

, 1994; Sternbach, 1991). Objetivos Geral O objetivo deste trabalho foi avaliar o padrão de uso da infusão de Banisteriopsis caapi com a Psycotria viridis (chá) no contexto ritual. Específico Destacar os possíveis efeitos tóxicos, propondo campos de pesquisas mais aprofundados sobre o assunto.

Revisão antropológica do uso do chá A UTILIZAÇÃO DA AYAHUASCA PELAS CIVILIZAÇÕES INDÍGENAS DA AMÉRICA DO SUL Diversos povos indígenas, que vivem desde a região da Amazônia até o sul dos Andes, fazem uso ritualístico de várias substâncias alucinógenas. A Ayahuasca ( Banisteriopsis caapi e Psycotria viridis), especificamente, é utilizada por cerca de 72 tribos distintas da Amazônia, dentre elas destacam-se os Kaxinawá, Yaminawa, Sharanawa, Ashaninka, Airo-pai, Baranara, dentre muitas outras de cultura xamã (Labate e Araújo, 2002; Macrea, 1992).

Para estas civilizações primitivas, as manifestações religiosas ocorrem na forma de mitos ligados à realidade do meio que os cercam. Para os Kaxinawá, por exemplo, a natureza possui alma, vontade e ordem própria, revelando que o espírito da mesma é uma energia vital responsável por todo o fenômeno vivo em qualquer parte do mundo (Labate e Araújo, 2002).

  • Assim, a natureza não está fora do humano, o humano está dentro da natureza, reconhece marcas e traços de sua cultura verdadeira, em hábitos, sons e desenhos de animais e espíritos.
  • Para os Kaxinawá, a natureza não existe sem ser permeada pelo espiritual, senão seria apenas pó (Labate e Araújo, 2002).

Na cultura indígena, quando se está em um estado normal da percepção só é possível ver os corpos e suas utilidades, porém, nos estados alterados de consciência é que se defronta o outro lado da realidade, percebendo os espíritos que habitam as plantas e os animais e, que as tribos reconhecem, como “gente nossa” (Labete e Araújo, 2002).

Nesse ponto, o consumo da Ayahuasca possibilita a percepção da igualdade entre os seres (Labete e Araújo, 2002; Macrea, 1992). O estado de alteração da consciência induzido pelo chá está em relação direta com os sonhos. Perceber o lado oculto da realidade é a razão pela qual se sonha ou se ingere o chá (Labete e Araújo, 2002).

A ingestão da bebida seria, ainda, fundamental para o destino do índio depois da sua morte. Somente com o chá, o homem poderia perceber a separação entre o espírito e o corpo. Sem isso o corpo ficaria louco e não conseguiria alcançar a “aldeia celeste”, que seria o destino final do espírito.

  • E, também, somente com o chá se pode adquirir a força necessária para enfrentar “a luta espiritual com a onça gigante e não ser devorado por esta, que está no meio do caminho para a aldeia celeste” (Labete e Araújo, 2002).
  • Entre os Ashaninka, a Ayahuasca significa virtude religiosa e moral, sendo seu uso ligado a um dever, cuja principal característica é a eternidade (Labete e Araújo, 2002).

Dentre as culturas indígenas, as visões causadas pelas plantas são consideradas verdades absolutas, e mais, as visões seriam a verdade. Para estas civilizações, a vida cotidiana seria uma ilusão ou um período transitório (Labete e Araújo, 2002). O verdadeiro aspecto da vida na Terra é aquele contemplado nas visões sob o efeito do chá.

A planta revelaria as coisas como elas realmente são, revelaria a essência dos seres, e neste caso todos seriam iguais, todos com aspecto humano, mas não são homens e sim seres da natureza que vivem em um espaço próprio, onde eles vêem tudo e sabem de tudo (Labete e Araújo, 2002). A Ayahuasca é considerada, ainda, como sendo a fonte de todo o conhecimento necessário para se viver corretamente em todos os aspectos (pessoal, moral, social, espiritual, ancestral, com os animais, plantas e seres sobrenaturais).

Por fim, destacamos a crença indígena nos efeitos terapêuticos da planta que é ao mesmo tempo aquilo que permite o diagnóstico, bem como a cura para inúmeros males (Labete e Araújo, 2002). Assim, a Ayahuasca, para as tribos indígenas, seria a ferramenta para a compreensão da natureza (Deus e vida), além de indicar a identidade social e a autonomia da tribo.

  1. A Ayahuasca nas religiões contemporâneas O SANTO DAIME (CULTO ECLÉTICO DA FLUENTE LUZ UNIVERSAL) O Santo Daime foi criado em Rio Branco (AC), por um seringueiro chamado Raimundo Irineu Serra.
  2. O chá é feito com a união das plantas: o cipó é o elemento masculino e a folha o feminino.
  3. A palavra Daime vem do verbo “dar” mais o pronome “me”, como um pedido: – “Dai-me força, dai-me luz” (Labete e Araújo, 2002).

Os rituais na religião do Daime são designados “trabalhos” que se aplicam sobre o corpo e o pensamento (Labete e Araújo, 2002; Macrea, 1992). A noção de trabalho nomeia o “trabalho espiritual” que tem como suporte o corpo em sua totalidade, essas ações dizem respeito a atitudes corporais visando à adaptação do jovem (neófito) ao sistema.

  1. O “trabalho” significa uma multiplicidade de técnicas que têm o corpo por suporte: “fardamento”, concentração, coordenação de movimentos, o cântico de hinos e os efeitos físicos da bebida.
  2. Salienta-se que é preciso aceitar os códigos de conduta no interior do sistema, com destaque para a obediência, a humildade e o amor a todos os irmãos (Labete e Araújo, 2002; Macrea, 1992).

A bebida é considerada instrumento de acesso ao “mundo espiritual”, que só pode ser conseguido através do conjunto de técnicas que induzem efeitos previstos e prescritos pelo sistema (Labete e Araújo, 2002; Macrea, 1992). As técnicas corporais variam com a idade, são divididas em relação ao sexo e instituem identidade e posição social (Labete e Araújo, 2002).

  1. Existem inúmeras técnicas no “daimismo”.
  2. Podemos citar, por exemplo: “técnicas do nascimento e da obstetrícia” – nas quais o chá é utilizado por mulheres grávidas como proteção e facilitador do parto.
  3. Em geral, as mulheres daimistas têm seus filhos em casa e aconselha-se que tomem o Daime (Labete e Araújo, 2002).

Os recém-nascidos recebem uma gota de Daime em sua boca, podendo continuar a recebê-lo ao longo da vida, de acordo com a decisão dos pais (Labete e Araújo, 2002). O batismo consiste em colocar na boca do batizando uma pitada de sal, seguido de algumas gotas de Daime e o derramamento de uma pequena quantidade de água sobre a cabeça do neófito; são exemplos ainda as “técnicas da infância, as técnicas da adolescência e as técnicas de cuidados corporais”, “técnica do consumo” (Labete e Araújo, 2002).

O ritual de preparo do chá é realizado na última lua nova do mês, recaindo em um fim de semana, quando então é feita a limpeza das plantas. Em seguida, prepara-se a infusão a partir dessas plantas (iniciando o cozimento da folha e do cipó em camadas alternadas), indo ao fogo três vezes, representando o firmamento do sol, lua e estrela.

Em seguida, ocorre a ingestão junto aos cânticos dos hinos (Labete e Araújo, 2002; Macrea, 1992). Destaca-se, entre os usuários do Daime, o reconhecimento de sua ação terapêutica. A interpretação simbólica da doença é constituída através de noções cristãs como o arrependimento e o perdão, apontando para a necessidade de uma transformação ética, conseguida com a utilização do chá, devidos aos seus poderes na mente humana (Labete e Araújo, 2002).

  • Os conceitos kardecistas juntam-se às concepções cristãs na organização das explicações daimistas de doença e cura (Labete e Araújo 2002; Macrea, 1992).
  • A BARQUINHA (CENTRO ESPÍRITA E CULTO DE ORAÇÃO CADA DE JESUS E FONTE DE LUZ) Essa religião foi criada no Acre, onde se restringe até hoje ( http://members.tripod.com/bmgil/aws08.html ).

Possui influencias de práticas religiosas, tais como catolicismo popular, xamanismo indígena, religiões afro-brasileiras e filosofia do Circulo Esotérico da Comunhão do Pensamento. O elemento principal é o Daime, de onde os participantes adquirem uma percepção diferenciada da realidade, entrando em um estado alterado de consciência (Labete e Araújo, 2002).

Uma das características reside no fato dos símbolos estarem relacionados ao mar. A barca e os seus integrantes têm dois significados: o primeiro é o de que ela representa a missão deixada por seu criador (marinheiro, filho de escravos) e o segundo expressa a viagem de cada um pelo mar, representando a viagem/passagem do ser humano pela vida (Labete e Araújo, 2002).

A UNIÃO DO VEGETAL Existem hoje, cerca de cinco mil pessoas ligadas à União Vegetal (UDV) em diversos locais do país. Seus participantes ingerem o chá em sessões noturnas quinzenais regulares, em sessões anuais e datas comemorativas cristãs. Essa doutrina poderia ser denominada como cristianismo espiritualista, com influências orientais e de outras religiões (Labigaline, 1998).

Além da crença nessas idéias, a instituição desenvolveu um conjunto de regras, sanções e valores morais que facilitam a evolução espiritual, segundo seus membros. A infidelidade conjugal, o uso de álcool e outras substâncias psicoativas são exemplos de práticas desaconselhadas por seus membros. A instituição foi lentamente se hierarquizando e hoje seus membros estão divididos em mestres, conselheiros e discípulos (Labigaline, 1998).

Os rituais são dirigidos pelo Mestre Geral Representante de cada núcleo, não existem mulheres nesta função. A diferença hierárquica existe também na divisão de atividades do núcleo, como o preparo do chá, lanches e refeições que são servidos nos dias de trabalho e rituais (Labigaline, 1998).

O uso do chá por seus membros é visto como uma forma de atingir um estado de êxtase e lucidez espiritual. O Mestre dosa, segundo sua impressão, a quantidade que cada indivíduo deve receber, não excedendo um copo americano (150 a 200 mL) (Labigaline, 1998). Os usuários experientes têm muito cuidado na escolha das pessoas e do local onde é realizado o ritual (Labigaline, 1998).

Na presença de pessoas iniciantes ou pouco conhecidas pelo grupo, esses devem estar sempre acompanhados de um usuário experiente e geralmente esses realizam uma preleção coletiva com a finalidade de atenuar ao máximo a possibilidade do surgimento de reações adversas e para proteção da experiência grupal (Labigaline, 1998).

Nesta preleção, realiza-se um planejamento do ritual considerando-se aspectos tais como: combinações prévias daquilo que os participantes podem realizar, preparação da alimentação que será ingerida durante ou após o ritual, se serão utilizados ou não tranqüilizantes para pessoas que passem por uma “viagem ruim” e se haverá ou não algum tipo de comunicação verbal entre os participantes durante a experiência (Labigaline, 1998).

Quando os efeitos começam a surgir, o Mestre circula entre os participantes perguntando se “há burracheira 1 1 Burracheira: “É o nome dado ao efeito da Ayahuasca no espírito humano, e significa ‘força estranha’. Revela a dimensão espiritual e a existência do Sagrado.

Durante o tempo que esta força se manifesta, o discípulo experimenta grande clareza e discernimento e recebe ensinamentos sobre a própria existência. A burracheira nem sempre é uma experiência fácil, embora seja sempre benéfica e purificadora” ( http://www.uniaodovegetal.org.br/udv/index.html ). ” ou se os efeitos começaram a surgir (Labigaline, 1998).

Durante as duas horas seguintes ocorrem vários períodos de silêncio, interrompidos por chamadas ou canções que evocariam os espíritos protetores, cantados geralmente por um dos Mestres (Labigaline, 1998). Se alguém desejar sair, deve solicitar ao Mestre e seguir o sentido anti-horário da mesa (Labigaline, 1998).

  • Esta doutrina mostra-se extremamente cuidadosa, organizada e fundamentada em seus conceitos e valores morais e religiosos.
  • Aspectos botânicos, químicos e farmacológicos da Ayahuasca Características botânicas e químicas das plantas utilizadas na preparação do chá O cipó Banisteriopsis caapi é da família Malpighiaceae, nativa da Amazônia e dos Andes.

Possui em sua composição alcalóides b-carbolinas inibidoras da MAO, sendo que os de maior concentração são: harmina, harmalina, tetra-hidro-harmalina. A concentração desses alcalóides varia de 0,05% a 1,95% (McKenna et al., 1998). A Psycotria viridis, planta da família Rubiaceae, possui em sua composição o alcalóide derivado indólico N, N-dimetiltriptamina (DMT) em concentração de 0,1% a 0,66% que age sobre os receptores da serotonina (McKenna et al.

1998). Baseado em análises quantitativas do chá, 200 mL de Ayahuasca possui 30 mg de harmina, 10 mg de tetra-hidro-harmalina e 25 mg de DMT (McKenna et al., 1998). Em camundongos, 5 mg/kg de harmalina causa cem por cento de inibição motora por duas horas (McKenna et al., 1998). Essa dose seria em adultos o equivalente a 375 mg em 75 kg, porém, é provável que metade dessa dose também tenha efeito (McKenna et al.

, 1998). Como são inibidoras da monoaminoxidase (MAO), as b-carbolinas podem aumentar os níveis de serotonina no cérebro e os efeitos primários de altas doses dessas substâncias é a sedação provocada pelo bloqueio da desaminação da serotonina (McKenna et al.

1998). No chá da Ayahuasca, as b-carbolinas inibem a MAO, protegendo o DMT da degradação pela mesma (McKenna et al., 1998). Mecanismo de ação do DMT e das b-carbolinas O RECEPTOR DA 5-HIDROXITRIPTAMINA – SEROTONINA Antes que se possa entender o mecanismo de ação dos alcalóides encontrados no chá da Ayahuasca, faz-se necessário o entendimento do mecanismo endógeno.

A serotonina 5-hidroxitriptamina (5-HT) se distribui amplamente nos tecidos animais (Katzung, 1998). Na glândula pineal, atua como precursora da melatonina, um hormônio estimulador dos melanócitos (Katzung, 1998). Mais de 90% da serotonina do organismo são encontradas nas células enterocromafins do trato gastrintestinal (TGI) (Katzung, 1998).

  1. No sangue, a serotonina é encontrada nas plaquetas, que são capazes de concentrar a amina por meio de um mecanismo transportador ativo (Katzung, 1998).
  2. É encontrada também, nos núcleos da rafe do tronco cerebral, que contém corpos celulares de neurônios triptaminérgicos (serotoninérgicos) que sintetizam, armazenam e liberam a serotonina como seu transmissor (Katzung, 1998).

Os neurônios serotoninérgicos cerebrais estão envolvidos em diversas funções como sono, humor, regulação da temperatura, percepção da dor e regulação da pressão arterial (Katzung, 1998). Pode estar envolvida ainda, com condições patológicas, tais como depressão, ansiedade e enxaqueca.

Neurônios serotoninérgicos são encontrados, também no sistema nervoso entérico do TGI e em torno dos vasos sangüíneos (Katzung, 1998). A serotonina é metabolizada pela MAO em 5-hidroxindolacetaldeído (Katzung, 1998). A serotonina exerce muitas ações mediadas por receptores na membrana celular. O receptor 5-HT 1a tem distribuição pelos núcleos da rafe e hipocampo, diminuindo o AMP cíclico e levando à hiperpolarização da membrana causada pelo aumento da condutância de K +,

O receptor 5-HT 1b aparece no globo pálido e gânglios da base e sua estimulação leva à diminuição do AMP c, O receptor 5-HT 1c ocorre no coróide e hipocampo gerando também, aumento do IP 3 nesses locais (Katzung, 1998). O 5-HT 2 distribui-se pelas plaquetas, músculo liso, córtex cerebral e fundo do estômago, causando aumento do IP 3 (Katzung, 1998).

Esse aumento de IP 3 significa, ao final do mecanismo, aumento da secreção e da motilidade desses órgãos e tecidos. Os principais efeitos da serotonina no sistema cardiovascular são: contração do músculo liso e vaso constrição potente (exceto em músculos esqueléticos e no coração); no coração causa vasodilatação e agregação plaquetária ocasionada pela ativação do 5-HT 2 de superfície (Katzung, 1998).

No TGI, causa contração da musculatura lisa, aumentando tônus e facilitando o peristaltismo. A produção excessiva de serotonina em tumores associa-se à diarréia intensa (Katzung, 1998). Sobre a respiração, a serotonina tem pequena ação estimulante do músculo liso bronquiolar (Katzung, 1998).

No sistema nervoso, essa substância é estimuladora potente das terminações nervosas sensoriais para dor e prurido, além disso, é ativadora potente das terminações quimio-sensíveis localizadas no leito vascular coronário, associada à bradicardia e hipotensão (Katzung, 1998). A DIMETILTRIPTAMINA O dimetiltriptamina (DMT) é um potente alucinógeno quando usado por via parenteral na dosagem de 25 mg (McKenna et al.

, 1998). Sua ação é agonista dos receptores 5-HT 1a, 1b, 1d e do 5-HT 2a e 2c, Porém, por via oral, ele é inativado através da desaminação sofrida pela ação da enzima MAO intestinal e hepática. Os efeitos aparecem de 30 a 45 minutos, aproximadamente, e podem durar até quatro horas (Mckenna et al.

  1. 1998). AS b-CARBOLINAS As b-carbolinas têm propriedades alucinógenas (Cazenave, 1996) e, portanto, contribuem para a atividade da bebida Ayahuasca.
  2. Como são inibidoras da MAO, as b-carbolinas inibem a desaminação intestinal do DMT possibilitando a chegada deste ao cérebro, mesmo por via oral (Callaway et al.1999).

Além disso, elas ainda aumentam os níveis de serotonina, dopamina, norepinefrina e epinefina no cérebro. Os efeitos sedativos primários de altas doses de b-carbolinas são resultantes do bloqueio da desaminação da serotonina (Cazenave, 1996). A tetra-hidro-harmina (THH) é a segunda b-carbolina mais abundante no chá e atua como um fraco inibidor da recaptação do receptor 5-HT e inibidor da MAO, portanto, o THH pode prolongar a meia vida do DMT por bloquear a sua recaptação intraneuronal (McKenna et al.

  1. 1998). Por outro lado, a THH pode bloquear a recaptação neuronal da serotonina, resultando em altos níveis de 5-HT na fenda sináptica e pode atenuar os efeitos da ingestão oral do DMT por competir com os sítios receptores pós-sinápticos (McKenna et al., 1998).
  2. A ação da bebida se deve, portanto, à interação das b-carbolinas com o DMT presentes nas plantas, que juntas potencializam as propriedades alucinógenas de ambas isoladas, levando-se em consideração que as b-cartolinas aumentem as concentrações de DMT.

Os principais efeitos da Ayahuasca Os efeitos subjetivos são visão de imagens com os olhos fechados, delírios parecidos com sonhos e sensação de vigilância e estimulação. É comum ocorrer hipertensão, palpitação, taquicardia, tremores, midríase, euforia e excitação agressiva (Cazenave, 2000).

Náuseas, vômitos e diarréia são comuns e podem estar associadas à ação no receptor 5-HT 2, Certas b-carbolinas foram identificadas como causadoras de efeitos co-mutagênicos 2 2 O termo co-mutagênico significa que a substância poderá ativar algum mecanismo mutagênico. A harmina, por ela mesma, não possui atividade mutagênica, portanto, foi chamada de co-mutagênica (Umezawa et al., 1978).

e o mecanismo parece estar associado à interação destas substâncias com os ácidos nucléicos (McKenna et al., 1998). Essas substâncias, por serem inibidoras da MAO, podem causar a denominada síndrome serotoninérgica (Katzung, 1998), que é uma das patologias mais graves ocasionadas pelo excesso de serotonina (McKenna et al.

, 1998). A ação alucinógena conhecida como “miração” é uma manifestação específica e freqüente, caracterizada por visões de animais, “seres da floresta”, divindades, demônios, sensação de voar, substituição do corpo pelo de outro ser (homem ou animal), dentre muitas outras, de acordo com a experiência individual (Cazenave, 2000).

A Ayahuasca pode promover ilusões visuais, auditivas, olfativas e dos demais sentidos (Labigaline, 1998). Os chamados “estados alterados de consciência” provocados pelo chá podem ser considerados como alterações da percepção, cognição, volição e afetividade (Labigaline, 1998).

  • A avaliação de intensidade de efeitos da Ayahuasca foi realizada através da aplicação da Escala de Mensuração dos alucinógenos ( Hallucinogen Rating Scale ), uma hora depois de cessados os efeitos da ingestão de cerca de 150 mL do chá (Labigaline, 1998).
  • Foram encontrados resultados semelhantes a uma dose intravenosa de 0,1 a 0,2 mg/kg de DMT nos espectros de intensidade, afeto, cognição e volição (Labigaline, 1998).

No agrupamento de percepção, foi comparável com 0,1 mg/kg de DMT e no agrupamento de sinestesia foi inferior à menor dose de DMT intravenosa utilizada (0,05 mg/kg) (Labigaline, 1998). A maioria dos alucinógenos que atuam sobre o receptor 5-HT leva ao fenômeno de tolerância, que se caracteriza pela necessidade de doses cada vez maiores para se conseguir os mesmos efeitos ou da diminuição do efeito inicial, quando a mesma dose é utilizada (Labigaline, 1998).

O DMT mostrou-se uma exceção em estudo feito 1997, onde foi demonstrado que essa substância, em uso isolado, não levou ao desenvolvimento de tolerância crescente após doses subseqüentes (Labigaline, 1998). OS ESTADOS ALTERADOS DE CONSCIÊNCIA A palavra consciência, na língua portuguesa, pode ter um sentido ético, aparecendo como um juízo de valor ou um sentido psicológico, caracterizando uma tomada de conhecimento da realidade (Labigaline, 1998).

A psicologia abre distinção de duas ordens de fenômenos na atividade psíquica: aqueles que temos conhecimento direto e imediato e aqueles que são revelados de forma especial ou por meios indiretos, dessa forma, a consciência representaria apenas uma parte da nossa psiquê (Freud, 1969).

Consciência do eu, existe em todas os processos psíquicos, seja como percepção, sensação do corpo, recordação, pensamento, sentimento, do eu pessoal, e chama-se personalização (Jaspers, 1954). Pressupõe também a consciência do corpo físico, a forma, a posição, os limites e os movimentos do corpo resultando da integração de todas as sensações: táteis, dolorosas e visuais (Jaspers, 1954).

Os chamados estados alterados de consciência podem ser classificados em três conjuntos: embotamento ou entorpecimento, que se caracteriza pela diminuição ou perda da amplitude ou claridade da vivência, comum em quadros confusionais relacionados a processos tóxicos orgânicos, como a uremia; o estreitamento compreende, particularmente, a redução da amplitude fenomênica do campo da consciência, e que se apresenta em situações como sonambulismo, possessão, transes mediúnicos e estados de êxtase religioso; e o terceiro grupo, a obnubilação ou turvação, em que estão presentes entorpecimento importante, alteração do juízo de realidade e ideações anormais, com variações importantes dependendo da etiopatogenia do quadro, tais como delirium tremens, estados crepusculares epiléticos e amência (Nobre de Melo, 1981).

  • Dentro deste modelo teórico descrito acima, pode-se caracterizar o estado de consciência induzido pela Ayahuasca, em contexto religioso, como um estreitamento da consciência (Labigaline, 1998).
  • Tal alteração pode ser chamada de onírica, por guardar semelhanças com os sonhos (Mayer-Gross, 1969).
  • Em contexto toxicológico, o estado de consciência pode ser classificado como turvação com alteração do juízo de realidade, onde está presente entorpecimento importante.

Existem trabalhos que propõem quatro características encontradas nos estados alterados de consciência (Labigaline, 1998): (1) Inefabilidade: algo que não pode ser explicado com palavras em nenhum relato adequado do seu conteúdo. A sensação necessita ser experimentada diretamente, não pode ser comunicada ou transferida a outros; (2) Qualidade noética: semelhantes a estados de sentimento, estados de conhecimento, estados de visão interior dirigida a profundezas da verdade não indagadas pelo raciocínio.

São revelações, cheias de significado e importância; (3) Transitoriedade: não podem ser mantidos por muito tempo; (4) Passividade: sensação de que a própria vontade está adormecida e de que está sendo agarrado por uma força superior. Metodologia Com a finalidade de conhecer e atualizar a produção científica sobre o uso de Banisteriopsis caapi e Psycotria viridis, considerando-se aspectos antropológicos, toxicológicos e farmacológicos das substâncias ativas destas plantas, utilizou-se as seguintes estratégias: 1) Investigação bibliográfica retrospectiva, por meio da busca de base de dados bibliográficos como Medline (National Library of Medicine), Toxnet, SBTOx (Sociedade Brasileira de Toxicologia), Bireme (Biblioteca Regional de Medicina), Pubmed, Bibliomed e Farmatox (Red Temática Virtual de Farmacología y Toxicología).

A base de dados Medline é a mais amplamente utilizada em âmbito internacional, uma vez que analisa mais de 3.200 revistas de caráter biomédico; 2) Uma observação rigorosa, não apenas das bases de dados, mas também de publicações referenciadas em outros trabalhos encontrados em sites relacionados ao uso de substâncias psicoativas como Senad (Secretaria Nacional AntiDrogas), OBID (Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas) e Abead (Associação Brasileira de estudo de Álcool e outras Drogas); 3) Foram ouvidos voluntários que relataram os efeitos produzidos pelo uso do chá em contexto ritual, os quais se disponibilizaram, uma vez que não foram identificados de forma a respeitar a sua privacidade.

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Para cada uma das estratégias a busca foi realizada utilizando-se vocabulário controlado, o que garantiu a pertinência dos resultados encontrados. Foram selecionadas as publicações que permitissem atualização dentro dos objetivos almejados. Depoimentos de usuários Neste trabalho, “membros” das seitas ofereceram-se, voluntariamente, para manifestar suas opiniões a respeito do assunto.

Como os relatos foram espontâneos, não foram identificadas suas iniciais, sendo transcritos somente seus depoimentos. Abaixo os relatos das experiências físicas e as mirações obtidas durante a burracheira, “Na minha primeira experiência participei de todo o ritual na UDV e demorou um pouco para começarem os efeitos.

De repente, comecei a ficar meio letárgico e aí eu vi o índio gigante ao redor da mesa, trazendo a burracheira “. “Cheguei na beira de um barranco que tinha um buraco, coloquei o rosto no buraco pra ver o que tinha dentro, mas tive medo de olhar. Aí comecei a ouvir um barulho de mãos me chamando para entrar e uma voz disse: – Ele tá com medo, ele não vai vir! – Aí coloquei a cabeça no buraco e vi muitas luzes brilhando lá no fundo e escorreguei pra dentro.

Nesse momento, tive a sensação do parto, era como se estivesse saindo do ventre da minha mãe. Ao meu redor, surgiram borboletas, daí não tive mais medo”. “Lembro de tudo nitidamente. Eu via seres da floresta carregando lixo da floresta para dentro de uma caminhonete.

Muitos seres e muito lixo. Então perguntei para um deles: – O que é isso? – um dos seres me respondeu – São as suas máscaras, você não pode ver ainda.!”. “Se a pessoa está aprisionada ao ego ela pode se sentir muito mal. Transporte para um mundo feio, ruim. Sentir náusea, diarréia é o que chamamos de PEIA, significa o indivíduo passando mal”.

“Senti a presença da Nossa Senhora, a mãe Divina, mas não tive condições espirituais de olhá-la. Foi muito maravilhoso”. “Eu não vomitei nenhuma das vezes”. “Na primeira vez passei muito mal, com vômitos excessivos, taquicardia, não conseguia manter-me em pé, tinha medo, não conseguia dormir, mas isso aconteceu porque eu havia caminhado muito e esses efeitos são um processo de limpeza do organismo.

  • No dia seguinte, estava super bem, levinha, sentia a pele limpa, como se estivesse hidratada.
  • A única vez que tive uma miração, senti-me voando, sentia flutuar acima do meu corpo, elevada acima das pessoas e sentia a presença na sala de pessoas que não estavam, com vestes reluzentes verdes e brancas.

Nem todas as vezes vomito, isso só quando me desconcentro do hinário.” Sobre as mudanças observadas na personalidade e saúde e a perspectiva de uso do chá. “O que mudou foi à ferramenta de autoconhecimento. Benefício de imunidade eu diria que sim, porque sou convicto de que o bem-estar físico vem da boa conectividade com a divindade”.

  • É possível atingir as mirações sem o chá.
  • O daime não é o único caminho.
  • Eu diria que, para mim, foi necessária essa ferramenta para controlar o meu ego”.
  • Nunca vi alguém necessitar de aumento da dose.
  • Eu não sinto necessidade de tomar o chá”.
  • Se um cara tomou o chá e teve uma miração que, por exemplo, a inveja atrapalha a vida dele e depois sente inveja quando vai tomar o chá novamente este ‘cobra’ dele e aí ocorre a PEIA,

O sofrimento, o arrependimento gerado que causa a redenção”. “O daimismo é um recurso espiritual extremamente privilegiado, não se deve tratar com preconceito uma cultura milenar que traz um contato com a natureza. O Daime é o Santo Graal da busca pela felicidade”.

Discussão O padrão de utilização da Ayahuasca Deve-se levar em consideração dois tipos de uso para substâncias psicoativas: o recreativo, caracterizado pelo uso esporádico, onde não se observa nenhum prejuízo na vida do indivíduo; e o abusivo, definido como intenso, ocupando espaço maior na vida do indivíduo, prejudicando-o em algumas situações como a tolerância, dependência e compulsão em relação à substância (Labigaline,1998).

A utilização do chá da Ayahuasca pelos adeptos das religiões da UDV e Santo Daime, parece ser, de acordo com a pesquisa realizada neste trabalho, exclusivamente religiosa, não caracterizando abuso ou uso para fins ilícitos, podendo ser, portanto, classificado de acordo com o modelo acima, como recreativo.

Os usuários mostram-se convencidos dos benefícios da utilização ritual, no aspecto espiritual e físico, demonstrando o caráter puramente religioso dessa utilização. Não foram observadas, neste trabalho, razões para se acreditar no uso do chá como mais um alucinógeno, como por exemplo, LSD e o êxtase.

Porém, existem trabalhos que citam a possibilidade de ocorrer este tipo de uso, sendo este associado à massificação dos cultos religiosos mascarando a finalidade ritual das seitas (Cazenave, 2000). Os motivos que levam os indivíduos à procura desta substância são ainda obscuros, mas há razões para se acreditar na busca individual de resgate do contato com a natureza e a mudança nos padrões religiosos cristãos.

  1. O uso ritual aconteceu ao longo de toda a história da humanidade desde os seus tempos remotos e sempre foi restrito a ritos bem delimitados, com finalidades bem claras e fortemente inseridos na cultura dos povos iletrados (Labigaline, 1998).
  2. Relação da utilização ritual com os efeitos tóxicos Observa-se que as técnicas e sanções utilizadas no Santo Daime, Barquinha e UDV não levam em consideração os possíveis efeitos tóxicos das substâncias presentes no chá.

Efeitos observados comumente como náuseas, vômitos e diarréia, podem gerar reações mais graves no organismo, como desidratação e descompensação eletrolítica, sendo que esse agravamento mostra-se ainda mais sério no caso das crianças, que também são usuárias desde o nascimento, dependendo da decisão dos pais.

Um fator a ser considerado é a obrigatoriedade de se consumir o chá com estômago vazio e ingerir somente alimentos leves nas semanas antecedentes à utilização. Isto se deve a presença de uma substância chamada tiramina (que pode ser encontrada em queijos, por exemplo) que é uma molécula metabolizada pela MAO, podendo atingir níveis tóxicos devido à inativação da enzima causada pelo chá.

Portanto, alimentos que possuem tiramina devem ser evitados antes da utilização do chá. As razões pelas quais alguns indivíduos apresentam distúrbios eméticos e outros não, permanecem obscuras. O uso do chá por gestantes, como protetor e facilitador do parto, pode ser um ponto crítico, pois certas b-carbolinas possuem ação co-mutagênica (Umezawa et al., 1978).

A síndrome serotoninérgica parece ser o efeito mais grave das substâncias presentes no chá da Ayahuasca (Assis, 1996; Cazenave, 2000), porém, não foi observado nenhum caso durante este trabalho. Esses efeitos parecem ser ignorados pelos usuários, pois estes consideram essas ações como purificação ou um estado de não entendimento da divindade e, portanto, não são tomadas as devidas atitudes para a proteção do organismo.

Perspectivas futuras para a utilização do chá Existem relatos de usuários que sofreram intensa transformação de atitudes e de personalidade, trazendo mudanças significativas na vida desses indivíduos. Esses efeitos estariam relacionados à adesão ao ritual que, segundo o daimismo, traz à tona a visão da realidade do mundo (Labigaline, 1998).

Há, ainda, trabalhos que mostram a recuperação de indivíduos que utilizavam álcool e outras drogas pela da utilização do chá no contexto religioso. Esses indiví­duos mostravam-se ansiosos e com dificuldades emocionais, que foram substituídas pela relação com a Ayahuasca e com a instituição religiosa (Labigaline, 1998).

Conclusões O resgate antropológico contribuiu no sentido de mostrar as diferentes maneiras de se utilizar a substância em função das variáveis culturais. E mostrou que, em todos os casos, a utilização do chá segue um padrão de rituais e sanções. Certamente se mostram necessárias inúmeras pesquisas científicas no sentido de tornar essa utilização segura para os adeptos e para que estes se conscientizem dos danos ao organismo que essas substâncias podem causar.

As que parecem ser mais importantes após a realização deste trabalho são: – Utilização em gestantes e mulheres em idade fértil; – Utilização em crianças ao nascer e ao longo do crescimento; – Poder emético (reatividades individuais à ingestão do chá); – Recuperação de usuários de drogas. Este trabalho permitiu uma visão mais ampla e completa das razões que levam um indivíduo a procurar essas alternativas, mesmo que extremamente pessoais.

A pesquisa fundamenta o conhecimento para que a sociedade possa, sem preconceitos, entender e respeitar a cultura, pois é dessa forma que conseguimos informações importantes para tornar esta utilização segura, durante a exposição de seus usuários. Recebido: 20/04/2005 – Aceito: 05/08/2005

O que é o vômito no ayahuasca?

Por que as pessoas vomitam baldes ao tomar ayahuasca? Crédito: Eitan Abramovich / Getty Images. Depois da minha primeira cerimônia de ayahuasca, na qual eu não senti, ouvi com inveja um homem que vomitava enquanto pensava no Donald Trump. O presidente representa tudo o que era mais horrível para o cara, ele me disse.

O mediador explicou que as pessoas sob efeito de ayahuasca (chá feito de uma planta amazônica alucinógena e consumida em cerimônias xamânicas) costumam sentir que estão expelindo tudo que é repugnante de dentro de si quando vomitam. Então, antes da minha primeira vomitada com a ayahuasca, na minha terceira cerimônia, peixes podres apareceram na minha retina, e a palavra “repugnante” também me veio à mente.

Em seguida, a imagem de podridão se dissipou. Muitas pessoas descrevem experiências semelhantes. “Eu me senti nauseada e estava falando com uma força exterior, mais ou menos como um guia”, afirma KristyBelich, uma comediante de stand-up de 31 anos de Washington DC.

Eles me disseram ‘é agora’. Eu tinha um baldinho do meu lado e fui orientada a vomitar nele até que a luz verde se apagasse. Na terceira vez, a luz do vômito era laranja e amarela.” Nick Polizzi, residente de Boulder, no Colorado, de 39 anos, e autor do livro The Sacred Science : An Ancient Healing Path for the Modern World, também se recorda de um vômito de ayahuasca significativo.

“Havia uma pressão se formando no meu corpo, encapsulando todo o sofrimento e tormento, subindo pelo esôfago como o mercúrio de um termômetro”, ele se lembra. “Meus olhos se abriram e da minha boca saiu um ruído que eu não sabia ser capaz de fazer. Era um gemido demoníaco, diretamente de um filme de terror.

Eu tateei no escuro em busca do meu balde, e quando o encontrei, um gemido ainda mais alto escapou de minha garganta, acompanhado de algumas gorfadas. Naquele momento, todo o medo e sentimento de desorientação cessaram.” Talvez o efeito mais conhecido da ayahuasca seja o purgativo – por isso o balde ao lado do colchonete dos participantes.

De acordo com a crença tradicional, a purgação pode acontecer por diversos meios, incluindo diarreia, tremores, choro e sudorese, afirma Evgenia Fotiou, professora-assistente de antropologia na Universidade Estadual de Kent, que entrevistou xamãs e participantes de cerimônias de ayahuasca em todo o mundo.

As pessoas às vezes descrevem aspectos mentais da viagem que causam o vômito, e, em seguida, a viagem costuma mudar de rumo, afirma Luís Fernando Tófoli, professor de psicologia clínica e psiquiatria na Universidade de Campinas, que também estuda ayahuasca. Esses efeitos surgem do impacto da ayahuasca no sistema serotonérgico – envolvendo o neurotransmissor serotonina – que influencia diversos aspectos, incluindo o humor e as percepções visuais e auditivas, afirma James Giordano, professor de neurologia e bioquímica no Centro Médico da Universidade de Georgetown.

O vômito, em particular, deriva de sua ação na área postrema, área do tronco encefálico que controla a urgência em vomitar. Nessa região cerebral a ayahuasca age nos receptores de serotonina 5HT3 – também presentes no estômago – potencialmente contribuindo para náuseas, vômito e diarreia, Tófoli me contou.

Juntamente com os efeitos, a ayahuasca aumenta os níveis de serotonina no estômago e no cérebro. “O gosto desagradável da fermentação da ayahuasca também explica as náuseas, principalmente logo após sua ingestão”, Tófoli afirma. “Como a purgação pode ocorrer muito tempo depois disso, talvez o efeito não seja tão importante quanto o efeito direto no estômago.” O líquido da preparação também parece contribuir para o vômito, ele afirma.

Vomitar é muito menos comum após o consumo da ayahuasca na forma desidratada. Como o impacto da ayahuasca na área postrema é muito forte, o vômito costuma ser mais violento do que as gorfadas usuais. “A natureza daquele tipo de vômito é extremamante purgativo”, Giordano me conta.

  1. É um vômito profundo neurologicamente induzido.
  2. Você sente como se tivesse vomitado tudo o que comeu desde que nasceu.
  3. É como um megavômito.” A força absoluta do vômito explica parcialmente por que parece que os participantes estão vomitando pensamentos, emoções ou experiencias, ele acrescenta.
  4. Além disso, as pessoas simplesmente se sentem mais felizes quando não estão enjoadas, levando à percepção de que sentimentos negativos saíram do corpo.

Não há nenhuma explicação neurológica de por que o vomito parece ser mais do que simplesmente físico, os especialistas consultados me informaram. Parece simplesmente assim por causa da viagem emocional que ocorre ao mesmo tempo. “Existe provavelmente uma influência considerável do contexto social”, Tófoli afirma.

“Em todas as tradições da ayahuasca da América do Sul de que conheço, a purgação é considerada um tipo de limpeza física e espiritual, e não é compreendida como um efeito adverso indesejado.” Muitas pessoas ainda acreditam que a causa do vômito tem fundo emocional, mesmo quando há ciência por trás do acontecimento.

“Um xamã me disse que não é a ayahuasca que me deixa nauseado durante a cerimônia; são as coisas negativas existentes no corpo, como raiva, depressão, tristeza e medo, que, com resistência, estão saindo do corpo”, Fotiou afirmou. “Isso ecoa na forma como as pessoas falam de alguém que teve uma experiência na cerimônia.

Eles atribuem isso ao fato de que ele ou ela tem muitas coisas negativas para purgar pensava-se em geral que assim que a purgação estivesse terminada, a ayahuasca levaria a pessoa a um estado estático.” Na realidade, nas culturas com rituais de ayahuasca, a purgação física e mental nem costuma ser vista como um fenômeno separado.

“Você não verá a separação entre corpo e emoção em culturas nativas”, Fotiou afirmou. “O corpo é onde a emoção e até mesmo o conhecimento vivem.” Leia mais matérias de ciência e tecnologia no canal, Siga o Motherboard Brasil no e no, Siga a VICE Brasil no, e,

Pode tomar ayahuasca sozinho?

Rosan lembra que ‘a ayahuasca não é brincadeira e não é aconselhável a ninguém tomar sozinho ‘.

Como ayahuasca cura?

Repositório Universitário da Ânima (RUNA) Use este identificador para citar ou linkar para este item: https://repositorio.animaeducacao.com.br/handle/ANIMA/23980

Título: Os efeitos da ayahuasca no tratamento terapêutico da ansiedade e depressão
Rodrigues, Thaise Gonçalves
Orientador: Malheiro, Luciano Hasimoto
Tipo de material: Artigo Científico
Data: 26-Jun-2022
Palavras-chave: ayahuasca ensaio clinico potencial terapêutico
Modalidade de acesso: Acesso aberto
Resumo: Ayahuasca é uma bebida de origem indígena utilizada para cura espiritual em cerimônias e rituais xamânicos. Os usuários fazem uso como um processo de limpeza, no qual a pessoa abre a sua mente e assim pode enfrentar seus problemas com maior clareza. A partir disto, foi aberta a possibilidade de que este chá pudesse apresentar propriedades para tratar quadros de transtornos psiquiátricos. Neste contexto, o objetivo desta pesquisa é verificar as evidências sobre o potencial terapêutico e os efeitos da ayahuasca no tratamento contra a ansiedade e depressão. Tratou-se de um estudo de revisão de literatura. A pesquisa foi realizada por meio de bases de dados disponíveis nas plataformas BVS, SCIELO, LILACS, PUBMED e SCIENCE DIRECT com uso dos descritores ayahuasca, ensaio clinico e potencial terapêutico. Por meio dos achados do presente estudo foi possível identificar que participantes de pesquisas experimentais em ambientes naturalistas, religiosos ou não, perceberam benefícios notáveis ao ingerir ayahuasca para seus sintomas depressivos ou ansiosos ao elevar os níveis de serotonina, noradrenalina e dopamina no cérebro. Vale ressaltar que os estudos analisados não identificaram nenhuma evidência óbvia quanto aos efeitos negativos à saúde mental associados ao consumo a longo prazo.
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Como a ayahuasca age no cérebro?

Como ela funciona? – O chá de ayahuasca contém DMT e inibidores da monoamina oxidase. Ao agirem no sistema nervoso central, essas substâncias causam euforia e visões psicodélicas. É por isso que muitos usuários acreditam que o uso da droga proporciona experiências místicas e transcendentais.

O que não pode fazer antes de consagrar ayahuasca?

Durante os três dias que precedem o encontro, recomenda-se: –

    • Não utilizar álcool e drogas,
    • Não consumir carne,
    • Não consumir açúcar (frutas são permitidas)
    • Abster-se de relações sexuais nos 3 dias antes (a energia sexual quando contida tem grande poder)
    • No dia da cerimônia, alimentar-se de comidas leves, de fácil digestão e no máximo 5 horas antes do trabalho, no dia também aconselha-se evitar estimulantes como café

Quem são as pessoas que tomam ayahuasca?

O outro lado da ayahuasca De tempos em tempos, surge uma onda de otimismo, quase sempre frustrada, acerca da possibilidade de uso de compostos psicodélicos para tratar problemas de saúde mental. Extraída de plantas ou sintetizada em laboratório, essas substâncias costumam alterar a percepção da realidade e as emoções e causar uma sensação de bem-estar, além de poderem provocar episódios de ansiedade com menor frequência.

A disseminação de seu uso recreativo nos anos 1960 pelos movimentos de contracultura levou as autoridades sanitárias a proibir o acesso a esses compostos em muitos países – alguns permitem o uso restrito em pesquisas. A onda atual de entusiasmo ganhou força nos últimos anos com a publicação de resultados promissores de estudos mais bem planejados e realizados com mais rigor, ainda que com poucos participantes, para avaliar a segurança e a eficácia dos psicodélicos – alguns naturais, como a psilocibina e a ayahuasca; outros sintéticos, como a cetamina ( ).

“A psiquiatria necessita de novos medicamentos porque muitos dos que existem hoje não apresentam boa eficácia contra certos casos de depressão”, afirma o psiquiatra Jaime Hallak. Ele é professor na Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto (USP-RP) e coordena uma rede de pesquisadores que investiga o potencial terapêutico dos psicodélicos.

Um dos compostos avaliados pelo grupo é a ayahuasca, produzida a partir do cozimento de folhas do arbusto Psychotria viridis, conhecido como chacrona, e da casca do cipó Banisteriopsis caapi, também chamado de mariri. Usada por povos indígenas da Amazônia em rituais de cura espiritual, a ayahuasca foi incorporada a partir dos anos 1930 em cerimônias de seitas religiosas criadas por seringueiros – Santo Daime e União do Vegetal, no Acre, e Barquinha, em Rondônia.

Nos anos 1980 passou a ser consumida em outras partes do mundo. No Brasil, seu uso é considerado legal desde 1987 para fins ritualísticos. Mais recentemente, começou-se a analisar a potencial ação antidepressiva dessa bebida, embora seu consumo ainda esteja longe de poder ser indicado como tratamento para depressão.

Em um dos seus trabalhos mais recentes, os grupos de Hallak e do neurocientista Dráulio Barros de Araújo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), avaliaram a ação antidepressiva de uma única dose de ayahuasca administrada a pacientes com depressão severa que não respondiam aos medicamentos usuais.

No experimento, realizado no Hospital Universitário Onofre Lopes, em Natal, 29 pessoas foram aleatoriamente indicadas para receber o chá ou uma bebida sem ação farmacológica (placebo), formulada para ter sabor e aspecto de ayahuasca. Antes, durante e por uma semana após o tratamento, os pesquisadores realizaram uma série de avaliações psicológicas e fisiológicas nos participantes (14 tomaram ayahuasca e 15 placebo), além de imagens de ressonância nuclear magnética para avaliar alterações no funcionamento do cérebro.

  • Durante o experimento, nem os pesquisadores nem os participantes sabiam quem havia recebido ayahuasca ou placebo – o chamado duplo-cego.
  • Os dois grupos apresentaram redução no quadro depressivo após o experimento, com melhora significativamente maior entre os que tomaram ayahuasca.
  • A diferença se tornou mais importante no sétimo dia após o tratamento: cerca de 60% das pessoas que receberam a preparação com as folhas e o cipó haviam apresentado uma redução superior a 50% nos sinais de depressão, contra 27% no grupo placebo.

Metade dos participantes do primeiro grupo estava completamente livre dos sintomas, ante 10% no segundo, de acordo com artigo publicado on-line em junho de 2018 na revista Psychological Medicine, “Até onde sabemos, esse é o primeiro ensaio clínico controlado com placebo já realizado com a ayahuasca”, conta Araújo, que já provou a bebida algumas vezes.

  1. Araújo começou se interessar em estudar a ayahuasca por volta de 2005, quando fazia a transição de sua área de formação, a física, para a neurociência.
  2. Com Hallak, realizou um experimento, descrito em 2012 na revista Human Brain Mapping,
  3. Eles convidaram 12 pessoas habituadas a consumir ayahuasca a fazer imagens do cérebro em funcionamento sob efeito da bebida.

Os participantes observavam algumas imagens e depois fechavam os olhos. Sob efeito da ayahuasca, a região do cérebro responsável pelo processamento visual permaneceu ativa mesmo quando estavam de olhos fechados. Talvez isso explique as visões que algumas pessoas têm quando tomam o chá.

De olhos fechados, o padrão esperado seria que essa área cerebral estivesse menos ativa. Outros dois estudos com ressonância magnética ajudam a explicar por que os usuários frequentes de ayahuasca parecem mais autoconscientes nos testes realizados. Em um deles, a neurocientista Fernanda Palhano-Fontes, da UFRN, observou que, durante o uso do composto, as pessoas apresentam atividade menor da rede cerebral acionada quando se está divagando ou remoendo pensamentos, algo comum na depressão.

Segundo os pesquisadores, os resultados apoiam a ideia de que o estado alterado de consciência está relacionado à modulação dessa rede. Controle das emoções e do humor Em outro experimento, publicado em 2016 no Journal of Clinical Psychopharmacology, o grupo de Hallak deu uma dose de ayahuasca a 17 pessoas com depressão refratária a tratamento que nunca tinham consumido a bebida.

Exames de imagens realizados oito horas após a ingestão do composto mostraram aumento da atividade de três áreas cerebrais responsáveis pelo controle do humor e das emoções (núcleo accumbens, ínsula direita e área subgenual esquerda) – os antidepressivos comuns também agem nessas regiões, mas levam mais tempo.

Avaliações do humor realizadas no dia e nas três semanas seguintes mostraram uma redução importante dos sintomas depressivos até o 21 o dia. “A ayahuasca parece agir como um antidepressivo duplo, reduzindo a degradação de serotonina e estimulando seus receptores”, explica o farmacólogo Rafael Guimarães dos Santos, da equipe da USP-RP.

  1. Esses receptores controlam as emoções e a neuroplasticidade.” Apesar dos resultados animadores, ainda não há informações suficientes que permitam indicá-la como um possível tratamento contra a depressão.
  2. Faltam dados mostrando que o uso da bebida é seguro no longo prazo e qual seria a dosagem terapêutica adequada.

Também seria necessário avaliar um número bem maior de participantes por mais tempo, em estudos controlados com placebo. Mesmo que esses testes sejam feitos, Hallak tem dúvidas de que um dia a ayahuasca se torne um tratamento disseminado. “A ayahuasca tem alguma semelhança com os medicamentos fitoterápicos, mas é mais complexo garantir que seja produzida sempre com a concentração desejada dos princípios ativos”, diz.

Projeto INCT 2014: Translacional em medicina (); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Jaime Eduardo Cecilio Hallak (usp); Investimento R$ 2.934.549,57 (para todo o projeto). Artigos científicos PALHANO-FONTES, F. et al, Psychological Medicine, On-line.15 jun.2018. DE ARAUJO, D.B. et al,

Human Brain Mapping.v.33, p.2550-60.2012. SANCHES, R.F. et al,,v.36, n.1, p.77-81. Fev.2016. SCHENBERG, E.E. Frontiers in Pharmacology,5 Jul.2018. : O outro lado da ayahuasca

Qual a religião que usa ayahuasca?

Porém, o Xamanismo brasileiro não é apenas uma religião e não faz uso apenas da Ayahuasca em suas cerimônias. Também tem valor cultural, outras plantas de poder enteógeno e outras ‘medicinas’ que são elementos culturais da tradição espiritualista.

O que eu preciso saber antes de tomar ayahuasca?

A medicina não deve ser utilizada por quem faz tratamentos com antidepressivos e remédios tarja preta, pessoas com tendência a esquizofrenia e outras doenças psicológicas. Antes de cada ritual, é preciso seguir uma dieta de pelo menos 48 horas sem álcool, carne vermelha e comidas pesadas e gordurosas.

Quando usar ayahuasca?

Número para marcação de consultas, disponível apenas em território brasileiro, com custo de chamada local. Atualizado em agosto 2022 Revisão clínica: Manuel Reis Enfermeiro A ayahuasca é um chá preparado geralmente com a mistura de duas ervas amazônicas, o cipó Mariri e as folhas de Chacrona, sendo muito usada em rituais religiosos e terapêuticos com o objetivo de melhorar a percepção, a concentração e a consciência.

  1. Conhecida também como “Hoasca” ou “Daime”, a ayahuasca contém DMT, harmalina e harmina, substâncias que aumentam os níveis de serotonina no organismo, ajudando a melhorar o humor e o bem estar e podendo, por isso, ser usada também para o tratamento de ansiedade, depressão e estresse pós traumático.
  2. O uso da ayahuasca pode causar alguns efeitos colaterais, como vômitos, náuseas e diarreia.

Além disso, a ayahuasca não é recomendada em algumas situações, como esquizofrenia e bipolaridade e, por isso, deve ser usada somente de forma controlada, em ambientes médicos ou religiosos regulamentados.

Eu sou Julián Díaz Pinto, tenho 48 anos e sou o fundador e administrador do site cltlivre.com.br, um portal jurídico dedicado a descomplicar as complexidades da legislação trabalhista brasileira.